Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Bernardo e Maria

Regionalização e representação territorial

Conta o Leitor

2019-07-23 às 06h00

Escritor Escritor

Ana Maria Monteiro

Maria e Bernardo conheceram-se num daqueles inúmeros congressos que frequentavam e versavam sobre temas vários, alguns dos quais refletiam interesses comuns a ambos. E foi até a existência desses pontos de contacto que proporcionou que se aproximassem e começassem a conhecer-se melhor.
Mas o que verdadeiramente os apaixonou um pelo outro, não foi isso. O que o arrebatou, em Maria, foram as fotografias que tirava, o seu olhar transfigurante sobre o banal, a sua arte; já Maria, rendeu-se ao fascínio da precisão das mãos de Bernardo, jovem neurocirurgião de reputação já firmada. Foi isto que os juntou.

Seguiram-se alguns anos de felicidade conjugal sem grande história e de que o expoente máximo eram as suas expedições a dois para fotografar; Maria colocava a máquina nas mãos de Bernardo, na exata posição que desejava para captar uma imagem, regulava, ajustava, aplicava a técnica e em seguida dedicava-se ao olhar, no momento em que queria a foto dizia: “— Agora!” e Bernardo disparava. A precisão era absoluta, o resultado maravilhoso, as fotografias eram sistematicamente premiadas em todos os certames internacionais de que Maria participava cada vez mais.
As noites do casal, após as expedições fotográficas, eram perfeitas, o entusiasmo e satisfação proporcionados por aquela partilha explodiam nos seus sentidos e as suas noites de amor continuavam a melhorar em cada uma. Acreditavam plenamente no seu amor e muito provavelmente não estavam enganados, eram felizes e nada mais desejavam que aqueles dias em que juntavam a arte de um à perícia do outro para produzir imagens de qualidade quase impensável.

Bernardo ainda não tinha quarenta anos quendo foi diagnosticado com Parkinson.
Creio que não é possível imaginar o trauma e sofrimento que isso lhe causou. Saber que não voltaria a operar, era quase insuportável. Maria compreendia-o, percebia o que ele sentia e mantinha-se a seu lado, firme. Firme mesmo quando a mão dele tremia, mesmo quando o seu humor mergulhava nas trevas do inferno em que vivia. Bernardo teria preferido morrer, mil vezes morrer! Mas era médico e colocava o valor da vida acima de tudo, acima até do seu dono.
Os dias sucediam-se e cada mínimo avanço da doença do marido provocava um sofrimento redobrado em Maria - por ele e por si. Maria deixara de fotografar, não tinha as mãos de Bernardo, estava também ela amputada. Lentamente, deixou também de olhar e apenas via superficialmente. Por fim, isolou-se em casa e raramente saía.

A sua impotência sobre a doença que evoluía com rapidez e a sua impotência perante ela, amargurava Bernardo, que era agora um homem feio, desagradável ao olhar e que revoltava manifestando um feitio insuportável. Quanto maior era a devastação do marido, mais crescia a frustração de Maria. Bernardo fora roubado da sua paixão, mas tinha um inimigo a quem culpar: a doença; Maria perdera também a sua razão de viver e o motivo da sua alegria, mas não tinha a quem atribuir as culpas e sofria também por Bernardo que, o mais provável, seria que nem nunca tivesse pensado nos sentimentos de Maria. Afinal, o doente era ele, ele era a vítima.
A vida de Bernardo era de sofrimento e Bernardo sofria só por si, Maria sofria por ambos. E não tinha com quem falar, com quem desabafar, afastara-se de todos, amigos, colegas, ficara junto de Bernardo, isolara-se com ele num mundo sem aberturas para o exterior. Maria sofria muito.

E foi naquele dia lindo de primavera, sim o dia estava lindo, Maria deu-se conta disso. Foi naquele dia de primavera que aconteceu. Bernardo acordou e não conseguiu sentar-se na cama sem ajuda, ele ficou como louco. Ele enlouqueceu mesmo! Maria nunca o vira assim, tão transtornado. Bernardo, enfurecido, gritava que não queria viver.
Bernardo gritava que não queria viver, ele gritava bem alto.
Então, Maria percebeu que também não queria que ele sofresse mais, que também não queria mais sofrer em dobro. Então Maria percebeu que também ela não queria que Bernardo vivesse.
Maria matou Bernardo!

Maria matou. Por amor? Por egoísmo? Não sabemos. Só sabemos que, desesperada, Maria matou Bernardo.
Nunca voltou a fotografar.?

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