Correio do Minho

Braga, sábado

Bigada - Liliana Pinheiro Gonçalves

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Conta o Leitor

2012-07-02 às 06h00

Escritor

- Sun, anda, vamos lá cima!
O meu nome é Liliana na realidade, Sun é a minha alcunha. Desde criança que o que mais gostava era do Sol, e o quanto eu chateava as pessoas a tentar explicar-lhes o quão bom era aquela sensação quente e calma.
Ainda estava tonta de ter andado nos carrinhos de choque — talvez seria por isso que a Maria e o Pedro olhavam para mim como que à espera que caísse — quando alguém me pegou na mão e me guiou para as escadas de pedra que subiam à outra rua. Era o Flávio, com a sua enorme impaciência.

O som da banda da festa popular ouvia--se cada vez mais alto, mas antes de irmos dar uma espreitadela, Flávio foi buscar uma bebida e uma fartura de chocolate.
A Maria, o Pedro e a Beatriz tinham vindo connosco mas todos eles estavam a meio de uma discussão sobre como íamos gerir o nosso dinheiro durante os próximos dois dias de festa.
O Flávio voltou com dois sumos e duas belas farturas. Tinha aquele sorriso malandro de quem tramou alguma.

- Foi de graça Sun - disse apontando com o queixo para o que trazia na mão - o mister estava lá.
- O treinador da equipa daqui? - perguntei enquanto comia.
- Yap, assim ainda meto gasolina hoje! - continuou sorridente.
Pensei quantos euros ele tinha poupado, e não percebi porque é que ele, se tivesse gasto aquele dinheiro, não podia meter gasolina. Nem perguntei. O som que vinha do palco da festa estava a agradar-me.

Pouco tempo depois de termos chegado à frente do palco, Flávio encontrou alguns amigos que não via há muito tempo e não demorou nada até se afastar um pouco da minha companhia. Maria e Joana foram as únicas que permaneceram calmas e atentas aos acordes que a banda tocava. Eu perdi-me a observar hipnotizada uma estrela e tentava lembrar-me como se chamavam as nebulosas que as criam.

Deixei a estrela e doei desta vez a minha atenção para um grupo de meninas que ali brincavam.
Eram todas parecidas, com os seus cabelos castanhos, roupas cor-de-rosa, e ganchos no cabelo, daqueles que me lembro odiar pois não prendiam nada. Brincavam e riam, correndo de um lado para o outro. Tudo era felicidade, até que reparei numa rapariga de cabelos longos e negros. Tinha a cara e as roupas sujas. Tinha ar de ser de outra cultura, provavelmente de outra religião.

Estava feliz, dançava e fingia ter uma guitarra na mão. Daquela maneira mostrava a tristeza que certamente era a sua vida. Como aquele simples som de música ao vivo era uma felicidade.
As outras meninas fugiam dela e não brincavam, pondo-a de parte, como se fosse um bicho, um parasita.

Comecei a chorar. Silenciosamente e sem ninguém se aperceber, como habitualmente acontecia. As minhas reacções físicas são assim, estranhas talvez, vomito quando tenho medo, raiva ou ansiedade. E choro às vezes por nada. Chorei ao pensar na tristeza que aquela menina sentia, mas ao mesmo tempo por vê-la ali feliz, pelo simples som da música. Parecia-se comigo.

Lembrei-me de como eu gostava daquela sensação da música ao vivo quando era pequenina nas praças de Londres, ou quando ouvia o meu irmão a tocar no sótão. Como também me pu-nham de parte nas escolas portuguesas por ser estrangeira. E como dançava como aquela rapariga desejando ter uma guitarra.

Sentia agora a minha guitarra nas costas e o quão isso me fazia bem.
Impulsivamente fui ter com aquela rapariga, peguei na sua mão e vi os seus olhos esbugalhados e temerosos.
- Não tenhas medo - acalmei-a, apesar de ainda chorar - Estás aqui sozinha?
Não respondeu.
- Não tens amigos?

Não respondeu. Começava a pensar se seria muda, ou surda. Por isso passei à frente a conversa e quando me levantei e passei o saco da minha guitarra para a minha frente assustou-se e preparou-se para correr, mas agarrei na sua mão e tentei acalmá-la:
- Não vás, não te quero fazer mal, quero só dar-te uma coisa.
Surda não devia ser, pois esperou esperançada, mas continuava sem dizer uma única palavra.
Tirei a minha guitarra, perfeitamente polida e por estranho que pareça entreguei-a àquela pequena menina sem qualquer problema.
Foi uma prenda do Flávio.

Desta vez era a menina que chorava. E finalmente falou.
- Bigada.
Tantos ‘obrigada’ tinha eu ouvido, e somente aquele ficou. Em tantas línguas diferentes. Merci, thank you, spassiba, gracias, e somente aquele, num português acriançado, frágil, escondido, mas o mais agradecido e sincero que alguma vez ouvira, permaneceu para sempre comigo.
Abraçou-me. Os seus pequenos e frios braços envolviam-me num gesto incrivelmente quente.

Deixei-me ficar enquanto eu e ela chorávamos. Aquele abraço fez-me recordar como tantos outros eram tão bons. O da minha mãe, no meu quarto em Inglaterra; o do meu pai quando lhe dava uma prenda no dia do pai; o do meu irmão no seu aniversário; o da minha prima quando eu era pequena; o do meu primo meses antes de morrer; o do meu avô quando me contava uma história; o da minha avó quando me dava um bolinho de bacalhau; os dos meus amigos quando fazia anos; o do Flávio, aquele que agora era o mais reconfortante e calmo, era o único abraço que existia e ficara, e como em tão pouco tempo deixara de ser estranho e passara a ser uma espécie de consolo ou droga saudável.

Ao longe ouviu-o dizer:
- A Sun ‘tá a dar a guitarra dela à miúda? Ai, mãe! Estou a ver que este ano vou andar a pé. Carrinho, minha chipóia querida! Nem no Natal vais ver gasolina filho!

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