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Bolboreta borboleta

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Bolboreta borboleta

Voz aos Escritores

2020-05-22 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Que o mundo dá voltas e elásticas cambalhotas, já todos sabemos. Que a minha imaginação me trouxesse Eusébio em bandeja de prata é que não entrava nos planos. Mas aconteceu. Encontrei-o numa simples cafetaria de Santiago, personagem do «Ás de bolboreta», livro para jovens e adultos, muito bem escrito pela galega Rosa Aneiros. No título sobressai a palavra «bolboreta», e foi quanto bastou para me mobilizar conhecimentos e outras recordações.

Entre esta forma e a portuguesa «borboleta» não há uma diferença substancial: têm as mesmas letras, com dois ligeiros movimentos. Trata-se de um processo comum, a que se chama metátese. A forma portuguesa está atestada já no século XIV (também «berbereta», no século XVI), provavelmente a forma galega será mesmo anterior, discute-se a origem, evidentemente latina, que balança entre papilio e bellus>*belbellita, que é diminutivo.

Seja qual for a origem, a verdade é que tanto o galego como o português têm uma palavra sonante para designar o inseto leptidóptero que nos cativa a vista.
Se há palavras belas, «borboleta» é das supinas, porque tem em si cor e movimento, maciez polínica, metamorfose e símbolo, tudo razões para a utilização estética e para a mais elevada poesia. Nas minhas leituras simbolistas, descobri em certo momento que o amor é mais leve que duas asas e um leve filamento, pesadas em rigorosa balança de ourives. Disse-o Eugénio de Castro, que não conheceu Saramago nas «Intermitências da morte». Com efeito, o bicho-da-seda morre quando a borboleta nasce, ou são uma e indissolúvel entidade?

Metamorfoses, transformações profundas, acontecem ao longo da nossa breve vida. Somos o mesmo ser, sentimos o mesmo amor em todos os momentos? Podemos pesá-lo com asas de borboleta? Ai Herberto, Herberto, tu que disseste «hei de pôr», na cabeleira da tua amada, uma coroa de borboletas… Estavas embriagado, ou nas núpcias lampejavam asas, cheias de desenhos e arrebóis? Já sei: viste a criança do Vergílio, de braços estendidos, a colher uma flor, e esta a levantar voo, a sacudir fortemente as asas, a chamar pelas suas rútilas irmãs e enlaçando-as, como se de espinhos se tratasse. Mas era uma rosa sem espinhos, uma borboleta vaidosa, sorridente e corada, lembras-te? Creio que Garrett a viu por entre folhas caídas e foi pensando nela que desenhou a nossa Joaninha. Ai Herberto, Herberto.

Claro que, como disse o Caeiro numa tarde em que guardava os seus rebanhos, uma borboleta é uma borboleta, e uma flor é apenas uma flor. Não sei se compreendi quando afirma que a cor é que tem cor nas asas da borboleta, e que o movimento é que se move, mas isso faz-me pensar nos rodeios iterativos em volta duma vela, da luz e do calor, e bem assim na morte subsequente. Desta morte nem quero falar, deixo isso para o Camões, que se armou em ofegante inseto e, presumo eu, saiu de lá muito bem queimado. Falo, no entanto, de odes triunfais, pindéricas não, mas talvez pindáricas, que nos falam de orçamentos e de parlamentos, numa forma tão pretensamente poética que quase nem infiro o voltejar do belo inseto. Eu olho para o nosso parlamento, abarrotado de palradores, e não vejo como possa ser tão belo como uma borboleta. Quando a Natália cirandava por lá, eloquente, vá que não vá. Mas agora… E o orçamento? Natural como uma árvore, que dá fruto suculento? Que suco se estatela de orçamentos secos ou mirrados, incapazes de matar a sede a quem morre de fome?

Definitivamente, os poetas são uns grandes mentirosos. O povo dá-lhes a beleza das palavras, oferece-lhes as palavras em bandeja de ouro, e eles toca a gozar com o pagode. Por mim, nunca mais lhes dava parlamentos. Apenas borboletas.

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