Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Bom dia professor

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2016-10-11 às 06h00

Cristina Palhares

5de Outubro - Dia Mundial do Professor. Repito este artigo… inteiramente dedicado ao professor. Desta vez, ao professor do 1.º ano do 1.º ciclo. Porque acredito que a mudança não se dita, não se decreta, não se impõe. Ela acontece…. Porque os professores assim o querem!
“- Desculpe… mas nem sei por onde começar. Estou muito nervoso, e estou também muito ansioso por saber que vou novamente pegar na minha pasta, nos meus cadernos e livros novos, lápis, esferográficas e uma lista de material, tudo novinho em folha. Alguns livros foram já usados por meninos ou meninas do ano passado. Mas eu não me importo. Para mim é como se fossem novos. Irei usá-los pela primeira vez.

Quero tanto ir para a escola…. Mas sabe, professor? O Daniel, meu vizinho e amigo de grandes brincadeiras não quer ir para a escola. Já lhe dói a barriga desde que a mãe lhe comprou uma mochila nova. Não consegue rir, nem tão pouco sorrir, quando lhe conto as minhas anedotas favoritas e que o faziam chorar de tanto rir logo no início das férias. Até parece que fui eu que perdi a piada…. Estou mesmo triste, por ele. E sabe porquê, professor?

O Daniel não é assim um aluno muito bom. O ano passado encontrei-o muitas vezes a chorar quando vinha da escola porque trazia notas más. E dizia-me sempre para eu não contar a ninguém… nem a professora sabia. Pelo contrário, ele sempre encolhia os ombros quando a professora lhe entregava as notas. Fazia de conta que não se importava… e afinal era tudo mentira! Mas eu sei que o meu professor vai saber bem se eu lhe mentirei ou não. Eu sei que o professor, o meu professor, saberá olhar para lá do meu encolher de ombros e perceber que me importarei e muito… eu sei! E sabe porquê professor?

Porque eu aprendo muito bem, sei muitas coisas que a escola ainda não me ensinou, mas eu sei…. Sei sim! Por isso, se alguma vez eu tiver más notas, olha que não é por eu querer, se calhar é porque não poderei… E o Daniel só tem isso: ele não pode muitas vezes! E não é pelo facto de ele trazer sempre más notas que ele vai melhorar.

De certeza que um dia, quando ele trouxer boas notas vai ficar tão, mas tão feliz, que vai voltar a rir das anedotas que eu lhe contarei. Eu, eu também serei assim. Sabe professor? Eu vou entrar na escola agora mas já sei ler… e acredite que ninguém me ensinou. Sei fazer contas tão rápido que às vezes nem eu sei bem como consigo. E quando o meu psicólogo me pede para eu lhe explicar como faço as contas, eu faço como o Daniel: encolho os ombros. E só me apetece chorar.

Mas não choro à frente dele, não. Porque eu não sei mesmo explicar como sei. Mas sei, professor. Sei mesmo. E com as minhas histórias eu faço igual. Estou fartinho de as ler que até já sei de cor. Pois… e agora o meu psicólogo já diz que eu tenho é boa memória. E eu volto a encolher os ombros! Mas eu sei que consigo vai ser diferente. Sei que vou poder aprender na escola tudo o que ainda não sei. E eu não sei tanta coisa! E quero aprender tanta coisa também…

No outro dia, numa conversa entre adultos que eu estava a ouvir (às vezes acho que os adultos pensam que as crianças são surdas) a minha tia dizia à minha mãe que ela não devia ter-me ensinado tanta coisa, que só me faz mal, que agora que vou entrar para a escola vou sofrer muito.
Ele há cada uma! Como se fosse possível! Então agora que eu vou fazer o que tanto quero, que vou para o lugar do mundo onde se aprende tudo, para o lugar do mundo onde toda a gente faz o mesmo: aprender... onde vou ter imensos adultos para me ensinar… agora é que eu vou ser infeliz?

Não professor… eu não vou chorar como o Daniel, pois não professor? Diga-me que não!… Diga-me o quanto a escola é aquele lugar com que tenho sonhado tanto nos últimos tempos. Diga-me que a escola é aquele lugar onde irei aprender até ao infinito. Porque eu já sei o que é o infinito… e eu quero chegar lá pertinho, pertinho. Eu sei, professor. Eu sei que não chego ao infinito. Mas posso chegar lá pertinho, sim?

E posso dizer ao Daniel que de certeza, de certezinha, ele este ano não vai chorar nunca, nem encolher os ombros… nem… nem mais nada. Porque a escola será o lugar onde eu vou viver! Só pode ser um sítio maravilhoso. Até amanhã professor… (Ah, é verdade, já me esquecia de lhe dizer: mas eu às vezes porto-me um bocadinho mal. Mas não faz mal, pois não professor?)”

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