Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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«Braga é o meu mel!»

As bibliotecas e as leituras no verão

«Braga é o meu mel!»

Escreve quem sabe

2022-05-01 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Título entre aspas, porque de uma citação se trata. Crónica que por intermédio do “F.” há de chegar ao conhecimento do autor da confidência, inconfidência eu faça, mas é por boa causa. Segue a história:
Finais de Março sou chamado de uma esplanada. As saudações usuais, o sacramental «não te tenho visto». Explico que venho dois fins-de-semana por mês, quando bem calha, mas que, no geral, tinha regressado a França. «Mas continuas a escrever!» Refere-se o meu amigo a estes textos, que aposto que não leia, embora o jornal prime na Recepção da empresa, e por mais do que um exemplar. Confirmo, naturalmente, e digo que ainda no dia anterior teria podido dar de olhos com um relato sobre as eleições francesas. Nem de encomenda, o acompanhante desconhecido é um luso-francês, melhor, um brácaro-parisino, pequeno empresário da Construção Civil.

Diálogo de minutos, que horas se faziam de almoços caseiros. Ligeiros apontamentos de vidas particulares e profissionais, preocupações com o futuro de filhos e com o declínio de pais – nosso também, posto que já não vamos para novos. E ei-la, a quase bíblica declaração: «Braga é o meu mel!» Explica que se refaz das caneladas da vida e das saturações do quotidiano com um vir cá em cima da hora, onde queridos tem, e onde uma tranquilidade de sacrário encontra. É veemente, diz que isso é uma coisa que o amigo que partilhamos não compreende. Confirmo que há uma inquietude que em Braga não se respira, que mínimo até é o stress sonoro e residual a percepção volante de perigo e ameaça.

Despedimo-nos enquanto cultores da bragoterapia. Talvez nos reencontremos para o aprofundamento dos parâmetros da técnica, para a posologia, não venha aí uma tal alta de preços que torne o tratamento incomportável.
Quanto Braga seja um mel, por mal vem que Portugal seja um fel, ou um felzinho, para não carregar nas tintas. Calha a propósito uma sondagem da Aximage: 41% dos portugueses estaria em qualquer grau descontente com a democracia doméstica. Por contaminação, saltou-me à vista que a distribuição é similar à repartição de votos entre Macron e Le Pen, sendo que, no nosso caso, ninguém cairá no exagero de destratar os descontentes de extremistas, de antidemocratas.
Quanto Braga seja um mel, quanto Portugal não chegue a ser um fel, emparedados nos encontramos nesta Europa transformada num vinagre repulsivo, bélico e pré-nuclear, com Berlim, Paris e Londres a dois-três minutos de misseis de novíssima geração, num vinagre insuportável de carestias e altas de preços, de que todos os poderes públicos lavam as mãos, como se do gesto proverbial de Pilatos mais não houvesse a fixar.
Em que planeta viverão os decisores públicos? Neste, esférico, ou nessoutro plano, sem anais merecedores de estudo e reflexão? Que razoabilidade assiste a quem dia após dia insiste numa fuga constante para a frente, multiplicando palermices por outrem cometidas? Empenhamo-nos – dizem –, porque seja importante defender a democracia tal como a entendemos, como a temos estabelecida. Certo, embora quase um em cada dois – transitoriamente que seja – não encontre de que se contentar com o que lhe toca no regime em que sobrevive.
Desassombroso, isento de vieses, muito eu gostaria de ler estudo que analisasse a qualidade de vida e o poder de compra nos últimos trinta anos. Gostava eu de ter a certeza de que vimos sendo governados ao nível do melhor que há, e que meritório de todos os sacrifícios é o nosso ordenamento político-social. Demonstrem-mo, e ter-me-ão do lado dos jihadistas da democracia. De outro modo, a defesa da democracia é uma falácia aparentada à da desnazificação.

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