Correio do Minho

Braga, sábado

Braga e o Plaza

Menina

Ideias

2019-06-27 às 06h00

Carlos Vilas Boas

Ouço “Aum”, gravação da banda mítica de Braga, os Mão Morta. “Quem vem do cemitério pela rua do antigo teatro, chegando ao largo onde estão as ruínas da igreja dos jesuítas, vira à direita, para a rua da estação do caminho de ferro, e segue sempre em frente, acompanhando a linha do comboio, até chegar a um barracão a que chamam museu e onde guardam as velhas locomotivas a vapor e as ferrugentas carruagens de bancos de madeira. Aí, mete pela rua onde não passam carros até chegar a um quiosque, daqueles redondos, frente ao qual, do lado esquerdo da rua, existe um cafezinho com esplanada onde ainda servem café de saco…. (continua)”.
No meu imaginário juvenil sempre achei que se reportava a um passeio deambulante pela cidade de Braga nos anos oitenta, pelo Miguel Pedro e o Adolfo Luxúria Canibal. Agora que ouço a música, décadas depois, fico com dúvidas, nas letras não reconheço a minha urbe, muitos anos passaram.
De todo o modo, o meu percurso quotidiano é diferente. Atravesso a Senhora-A-Branca, caminho pelo lado direito da Avenida Central no sentido do Banco de Portugal, passo por uma série de prédios degradados, outros reabilitados, um em recuperação, encontro as Convertidas, o museu Nogueira da Silva, paro em frente a um edifício onde surge nas fachadas à vista uma designação a letras grandes que já foram mais brancas:- “Francfort”, hotel encerrado há anos que já nem me lembro.
Traz-me à ideia que um dos edifícios ao lado do qual passei, abandonado, confinante com o das Convertidas, bem compridinho ao longo do passeio da avenida, tem um projeto para um empreendimento turístico, de cinco estrelas, Hotel Plaza ouvi dizer, sobre o qual li da existência de alguma polémica, cujo Pedido de Informação Prévia (PIP) foi aprovado em reunião de câmara com os votos a favor dos vereadores da maioria, salvo o do vereador do pelouro do urbanismo e do PS.
Não vejo mal algum, devo dizer, na posição do vereador com poderes delegados para a aprovação do projeto, em assumir uma posição contrária à sua apreciação positiva e em sentido contrário ao da maioria do executivo municipal. Um dos princípios da local smart governance é uma maior autonomia dos vereadores e não belisca a coesão da liderança municipal que um dos seus membros manifeste episodicamente uma decisão em sentido diverso, numa matéria que não impõe uma disciplina de voto. Ao aperceber-se no seio da governação local que a maioria do executivo e da oposição não afinava pelo seu diapasão, democraticamente tratou de submeter a aprovação a sessão da câmara municipal e acho que fez bem.
Quanto à recuperação do edifício para a instalação do tal Plaza e das dificuldades que, aqui, como em muitos outros casos, os empresários enfrentam para aplicar o seu investimento, recordo-me do texto irónico no “Expresso” de março de 2018 de Isabel Stilwell :- “… empresário é basicamente um alvo colocado à mercê dos milhares de institutos, direções, autoridades, departamentos e repartições… Se fossem pessoas inteligentes e bons chefes de família, tinham-se ficado pelo trabalho por conta de outrem, como a maioria de nós. De facto, se andam a brincar às empresas é seguramente porque preparam alguma - é penalizá-los por conta, já!”.
A primeira boa notícia nesta matéria é a existência de interessado em recuperar aquele edifício. Parece que a questão também não estará na construção de um hotel de luxo, para mim parece-me uma excelente ideia, mas eu moro ali perto, serei interessado, mas o meu interesse é legítimo, prefiro uma cidade moderna, atrativa e boa vizinhança.
A questão parece ser a de aceitar o caráter de excecionalidade relativamente à capacidade construtiva que decorre do PDM [Plano Diretor Municipal] - sendo que foi tornado público que o Conselho para a Regeneração Urbana deu parecer favorável ao PIP com aquela especificidade.
Segundo os críticos o hotel com 110 quartos implica a construção de um edifício de 6 pisos, o que implica uma grande escavação no interior do quarteirão, lado a lado com o Recolhimento das Convertidas.
Não me impressiona a questão. Importa, sim, assegurar que a construção vai manter as Convertidas na sua integralidade, segurança, monumentalidade e devido enquadramento, esse edifício que o Estado abandonou apressadamente há mais de uma década, fazendo cessar a atividade nobre aí desenvolvida pela Misericórdia de Braga, não se percebendo porquê e para quê, sendo certo que está desde então sem qualquer utilidade para os cidadãos, que faz apetecer que o Município aceite o quadro de transferência de competências para os órgãos municipais no domínio da gestão do património imobiliário público sem utilização, plasmado no Decreto-lei nº 106/2018, de 29 de novembro, para poder gerir as Convertidas.
Quanto a uma eventual demolição de todo o interior de 3 edifícios oitocentistas, interessa aferir do seu interesse histórico e arquitetónico, se se trata de património classificado ou em via de classificação. Não conheço o projeto nem o procedimento camarário, mas a informação publicada é que a Direção Regional da Cultura norte não colocou qualquer objeção.
Relativamente a uma redução da volumetria do Hotel e do seu número de quartos, a questão coloca-se aí ao nível da sua rentabilidade. Ninguém privado investe se não for com intenção lucrativa, para retirar frutos do seu investimento. E o assunto não é muitas vezes ganhar mais ou menos, atentas as margens de lucro reduzidas que se verificam nos mercados, é ganhar ou perder.
Leio a posição da Associação Amigos das Convertidas, parece-me sensata e equilibrada, fica defendido o interesse da comunidade. O interesse público está acautelado pela Direção Regional da Cultura e pelo Município.
E que prevaleça o bom senso entre todos os intervenientes. Não sei é o que pode ser revisto em sede de processo de licenciamento, pois se o interessado requereu que o PIP contemplasse a volumetria, alinhamento, cércea e implantação da edificação, a sua aprovação vincula as entidades competentes na decisão sobre um eventual pedido de licenciamento – artigos 14º, nº 2, alínea a) e 17º, nºs 1 e 2 do RJUE.
Termino o texto e antes da sua revisão saio, atravesso a Praça da Republica, desço a rua de S. Marcos e preparo-me para entrar no Largo Carlos Amarante e deparar do meu lado esquerdo com esse belíssimo exemplo do barroco que é a fachada do antigo Hospital.
Mas não. O que encontro ao entrar na praça é um quiosque que tapa quase integralmente a fachada da obra de Carlos Amarante.
Tenho de calcorrear vários metros, até contornar esse posto de venda de jornais e revistas, para conseguir olhar para a fachada, já de ângulo diminuído.
Distração minha. Relembro agora uma conferência a que tempos atrás tinha assistido, precisamente nessa Igreja, a propósito do bicentésimo aniversário da morte de Carlos Amarante onde o palestrante, o historiador Eduardo Alves Duarte, tinha apresentado a mesma constatação crítica. Faço o paralelo com a minha última visita a Salamanca e recordo que acedi à Plaza Mayor praticamente através de todas as possíveis entradas e em todas era possível ver as fachadas sem quaisquer obstáculos.
Anoto mentalmente que não volto a entrar no Largo Carlos Amarante através da rua de S. Marcos.

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