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Brinquedos perigosamente inteligentes

A recuperação das aprendizagens

Ideias

2017-05-26 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Lembram-se da Incrível Amanda (Amazing Amanda)? E da sua irmã Incrível Allysen (Amazing Allysen)? Pois é, estas duas bonecas que começaram a ser comercializadas pela Playmates Toys em 2005 têm mais de uma década. Mas podem continuar a ser compradas, por exemplo através da Amazon. Se encontrarem o seu vídeo promocional online, contudo, descobrirão que não se trata de umas bonecas quaisquer, pois são capazes de interagir com crianças de tenra idade, tipicamente raparigas, mantendo com elas uma conversa fluida, entoando canções em conjunto, pedindo-lhes abraços, jogando com elas e rindo e chorando e exibindo expressões faciais outras em função dos seus supostos estado de humor.

As bonecas irmãs pertencem à categoria dos chamados brinquedos inteligentes (BI; smart toys) que não deve ser confundida com aqueloutra dos brinquedos educativos, isto é, daqueles que ajudam as crianças que os manuseiam a explorarem capacidades suas e a desenvolverem a sua inteligência. Um BI é um brinquedo que, tirando partido de um conjunto de dispositivos eletrónicos (microprocessadores, microcontroladores, memória volátil e não volátil, unidades de input e output, etc.) nele incorporado simula comportamentos humanos. Isso significa, antes de mais, que atua com rotinas ou padrões, incorpora informação nova e aprende, e adapta-se por reação a estímulos do meio circundante.

Mas talvez a característica mais notável dessa categoria de brinquedos é a capacidade integrada que cada um deles tem para interagir com outros brinquedos ou com computadores pes- soais, mediante o controlo do software nativo (atualizável usando uma drive USB ou um cartão de memória) inclusive através da Internet.

Ora, é precisamente esta possibilidade de criação de uma “Internet de brinquedos” que tem vindo a suscitar crescente preocupação, recentemente agudizada na última edição da Conferência Internacional One sobre Cibersegurança ocorrida em meados de maio no World Forum em Haia (Holanda) quando o prodígio da informática, de apenas 11 anos, Reuben Paul, fundador da CyberShaolin, demonstrou à audiência de especialistas no domínio como é fácil usar a funcionalidade Bluetooth para manipularmos um BI - no caso, urso de peluche - à distância e torná-lo num aparelho de espionagem ou bélico.

O pequeno “ciberninja” parece ter impressionado fortemente todos de que podemos fazer isso com muitos dos nossos eletrodomésticos e veículos quotidianos, isto é, aproveitar a sua conexão à rede mundial de computadores e tirar partido na sua condição de artefactos que, por definição, podem servir para propósitos que não aqueles para que forma originalmente criados.
Antecipando esta inquietação emergente com o potencial da Internet dos Brinquedos para gerar malefícios, o “Fórum para uma Internet mais Segura”, promovido pela Comissão Europeia, encetou no outono de 2015 uma reflexão sobre as suas implicações éticas.

Centrados na questão “se o único limite para a inovação é a imaginação, onde devemos traçar uma fronteira moral para a Internet dos Brinquedos?” os participantes nessa discussão sugeriram que tentar dar-lhe uma resposta adequada passa, em boa medida, pelo exame crítico dos “dados que dão vida a esses brinquedos” (e.g., que lhes permitem falar, expressar fisionomicamente), que os fazem funcionar, em suma, complementado por uma “narrativa normativa ético-legal” apropriada para orientar a sua correta utilização, partilha e desenvolvimento. Eis, pois, que mais uma promissora avenida da ética aplicada se abre.

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