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“bué”, “tipo”, “iá”, “tás a ver”

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“bué”, “tipo”, “iá”, “tás a ver”

Ideias

2019-03-10 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

A gíria, segundo a Infopédia, da Porto Editora, pode ser uma (i) linguagem específica utilizada por elementos de setores profissionais (gíria jornalística) ou sociais (gíria académica) ou uma (ii) linguagem codificada de determinados grupos, usada com a intenção de impedir a sua compreensão por parte de elementos exteriores a esses grupos. (https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/giria, acedido em 07-03-2018).
O calão, por seu turno, é uma linguagem rude ou grosseira. Todavia, no dia a dia, mistura-se amiúde com a gíria e há mesmo quem os considere sinónimos.
Uma pessoa mais velha poderá não entender a frase: “Tivemos furo. A setora faltou e a DT disse para bazarmos.”, mas os miúdos facilmente a decifram – “Não tivemos aula porque a professora (senhora doutora = setora) faltou, e a diretora de turma disse para irmos embora.”
Ouvir uma conversa entre jovens (e menos jovens) torna-se uma maratona de decifração linguística. “Fixe” e “porreiro”, ainda usados, têm vindo a ser destronados pelo omnipresente “top” e pelo surpreendente “brutal” - o filme é “fixe”, o telemóvel é “porreiro”, o carro é “top”, a festa é “brutal”. Os mais “conservadores” ainda se socorrem do sempre à mão “giro” – o livro é “giro”, o Rui é “giro”, Ele está “giro”.
Colocar antes destes vocábulos um “bué” eleva a apreciação à quinta-essência. Ser “bué (da) fixe” é muito melhor que ser só “fixe”. O que muitos desconhecem é que “bué” é uma expressão de origem angolana que significa “muito”. Podem consultar mais significados no seguinte endereço: http://ensina.rtp.pt/artigo/bue-tem-mais-do-que-um-significado/
Para os mais velhos, “tipo” é sinónimo de “gajo” – aquele “tipo” é um “gajo” porreiro. Contudo, os mais jovens usam a expressão para iniciar toda e qualquer explicação ou como muleta numa frase longa. Verifico, no entanto, que a expressão já se alastra a falantes de outras faixas etárias, independentemente do estrato social e cultural.
Atente nas conversas à sua volta. Se perguntar ao empregado do restaurante o que é o prato do dia, pode ser informado de que se trata de “um bife, tipo prego, acompanhado de arroz, tipo solto, com legumes”. Se quiser saber como foi o dia dos filhos, pode esperar que partilhem consigo que “foi tipo como os outros.” Ao insistir, receberá em troca um “queres saber tipo nas aulas ou no recreio?” Esta parafernália de “tipos” vem, muitas vezes, acompanhada de “assim”. Um javali é “tipo assim” um porco selvagem. Um helicóptero é “tipo assim” um avião, mas diferente porque levanta na vertical.
A gíria não é de hoje. Nos anos 80, qual era o adolescente que não dizia “fogo”, “prontos”, “resmas”, “paletes” ou “já fui”? Esses adolescentes são agora pais e os seus pais são agora avós que tentam entender as conversas de filhos e netos, entrecortadas por “tá´se”, “bora”, “meu puto”, “tipo” e “zimbora”.
Se, nas conversas informais, podemos relevar o uso da gíria, o mesmo não se deveria passar num registo mais cuidado ou com alguma projeção mediática.
Recentemente, ficamos a saber que Conon Osíris irá representar Portugal no Festival da Eurovisão, com a canção “Telemóveis”. As entrevistas do músico (como esta em: https://www.youtube.com/watch?v=QJcdxO10cG8) refletem bem o uso indiscriminado de termos da gíria e do calão. Se ele usa, porque é que eu não posso usar? Pensará uma criança ou jovem que o oiça.
Aliás, o maior veículo de disseminação de linguagem informal é a música. Veja-se, a título de exemplo, uma outra letra de Conon Osíris, “Celulite” – “Mama solta a celulite yaya / A polícia 'tá a pensar que é dinamite yaya / Chama o melhor canalizador da city / Pede sanita infinita / Que o teu cu não tem limite yaya”. Outro ídolo adolescente, Sam The Kid, tem um êxito cujos primeiros versos são: “Canta o som, para que a moca baze / Nova sombra, retoca a base / Lá fora há uma hipótese que ela aguarda / Ela vê guita nova da velha guarda”.
A fuga à norma linguística é, também, um sinal de rebeldia da juventude. Não podemos querer que os nossos jovens deixem de usar gíria ou calão, mas podemos e devemos alertar para a necessidade de usar um registo mais adequado em situações formais.
Recentemente, um conhecido disse-me que terminou, em menos de trinta segundos, uma entrevista de emprego a um jovem que questionado sobre a razão da sua candidatura respondeu: “É assim, eu gosto bué de programação…”. Boa semana.

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