Correio do Minho

Braga, terça-feira

Bullying?

Tancos: falta saber quase tudo

Escreve quem sabe

2015-11-03 às 06h00

Cristina Palhares

No início do ano passado, e neste mesmo espaço, a minha crónica reflectia sobre a positividade nas nossas relações e nas relações estabelecidas quer entre pares, quer nas relações professor-aluno. Esta positividade, hoje amplamente difundida (para o bem e para o mal) está assente numa visão de aprendizagem que sai do foro estritamente cognitivo para o foro emocional, (se bem que eu entenda também o foro emocional imiscuído de muita cognição - tema para depois).

Perceber que a aprendizagem é antes a descoberta do sentido que os acontecimentos significam para cada um, e que é um processo de construção pessoal, interior, e que o apoio do educador não pode nunca deixar de contemplar a esfera emocional, permite perceber que são as relações pessoais que estabelecemos na sala de aula e em seu redor que desafiam os objetivos da educação.

O desafio da educação assenta assim não num sistema fechado de pensamento, próprio do estudo do mundo físico, dos objetos, que possibilita o progresso e o controlo, mas no novo instrumento das ciências sociais e humanas, o sistema aberto de pensamento, que possibilita a compreensão dos problemas humanos.

E vivemos também este mês, aqui na nossa cidade de Braga, momentos dirigidos ao combate ao bullying, e, em especial, através da Associação Juvenil Anti-bullying com Crianças e Jovens. Durante este mês pudemos ouvir, ler,… e agora escrever… variadíssimos testemunhos e histórias de vida com desfechos maus, muito maus, para as vítimas de bullying que assolam nas nossas escolas. Querer comparar tempos, escolas de outros tempos (onde os agressores normalmente já nem as frequentavam porque saíam cedo da escolaridade) e reduzir muitos dos comportamentos violentos ao “no nosso tempo também havia violência e estamos hoje cá todos” parece-me assustador. Tão assustador quando são os professores a dizê-lo, tão assustador quando são os professores a pensá-lo.

O desafio da educação não está a ser cumprido: a aprendizagem assente na compreensão dos problemas humanos.
O desafio da educação necessita de professores que acima de tudo percebam as relações que se estabelecem na sua sala de aula: dos muitos testemunhos ouvidos e lidos, grande percentagem dos comportamentos violentos continuados existe dentro da sala de aula e são ampliados no seu exterior quando o(s) aluno(s) agressor(es) sente(m) que o professor está a ser conivente. E ser conivente é ser também indiferente. O professor que faz de conta que não vê, que faz de conta que não ouve… o professor indiferente. E por isso tão responsável quanto o aluno perpetuador.

“Tão ladrão é o que rouba a horta como o que fica à porta”, assim diz o nosso provérbio. Pena que não estamos a falar de couves! E tudo mais se agrava, quando em plenos conselhos de turma deixamos que colegas desvalorizem, desdramatizem, ... e algumas vezes ridicularizem estas situações.

Recordo em muitos recintos escolares, no seu exterior, e na ausência de um efetivo controlo, a falta de atuação de muitos professores. Quantas vezes, ou chamamos os professores dos alunos em questão, ou reportamos ao diretor da escola acontecimentos que deveríamos ser nós, porque ali estávamos, porque presenciámos, porque vimos e ouvimos, … a atuar de imediato.

De uma maneira cobarde, e porque os alunos não eram “nossos” (expressão que ainda me custa a entender) nos ausentamos, nos alheamos. Recordo muitas vezes uma frase que um aluno me gritou quando o encaminhei para um banco do recreio: “a Stôra não me pode castigar, porque não é minha stôra”. “Ai sou, sou…. Sou professora em qualquer lugar do mundo”, logo lhe respondi. Verdade… somos professores, ponto. Não temos os “nossos” alunos, a “nossa” escola, a “nossa” sala…. Todos somos de todos! E não podemos esquecer também que os alunos que agridem e os alunos que são agredidos são “nossos”, sejam eles de que escola, de que turma, de que sala forem.

E o bullying necessita acima de tudo de professores muito atentos, quer aos alunos agressores, quer aos agredidos. Precisamos de medidas certas e eficazes para os agressores e precisamos também de dotar os agredidos de ferramentas “psicológicas” e emocionais que lhes permitam tornar-se mais fortes perante os agressores.

Retomando o início desta crónica, e indo de encontro ao desafio da educação assente num sistema aberto de pensamento, que possibilite a compreensão dos problemas humanos o melhor a que podemos visar é a produção de pessoas inteligentes e adequadas, capazes de enfrentar problemas e situações novas e encontrar soluções apropriadas à época e no lugar em que estão a viver. Saibamos nós ser essas pessoas inteligentes e adequadas para que o possamos transmitir!

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