Correio do Minho

Braga, sábado

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Buraco negro

Lance de charme

Buraco negro

Ideias

2019-04-16 às 06h00

João Marques João Marques

Na passada semana fez-se história. Pela primeira vez, a ciência foi capaz de fotografar um dos fenómenos astronómicos mais debatidos e enigmáticos que se conhecem. Foram precisos 8 telescópios espalhados pelo mundo para tornar concreta a teoria…da gravidade. Se tudo correr bem, daqui a uns meses teremos discernidas várias das dúvidas que resultaram desta observação, cujos dados, na sua totalidade, só poderão ser analisados quando terminar o inverno no Pólo Sul, lá mais para outubro.
O grande fator de novidade foi, claro está, a obtenção da prova. O documento, preto no branco (neste caso, a cores), foi finalmente alcançado e, a partir de agora, poderemos testar as alegações do génio de Einstein, que há já mais de um século as postulou.
O problema da prova está para a teoria da gravidade, como estará para qualquer evidência que se queira averiguar no mundo real, onde todos nos movemos.
Por muito forçada que seja a comparação, também nós, aqui em Braga, ansiamos por desvendar os insondáveis mistérios de um outro buraco negro, cuja gravidade não é teórica, mas de que as provas são, infelizmente, inexistentes.
Já aqui tinha discorrido sobre este fenómeno, que é mais astrológico do que astronómico, do buraco negro que fez com que a realidade colapsasse sobre si própria e a verdade dos factos se perdesse para a eternidade. Falo, concretizando, do caso dos terrenos do Picoto.
Tem sido um espetáculo verdadeiramente lamentável ver o PS local argumentar orgulhosamente que geriu este processo em cima do joelho. Resumindo, ao longo das últimas semanas, temos visto o líder concelhio dos socialistas, Artur Feio, a garantir que, por um 31 de boca, Mesquita Machado negociou com a arquidiocese a solução para os terrenos onde hoje se encontra um bairro social a necessitar de urgente intervenção. Note-se, terrenos onde se construiu um bairro social com dinheiros públicos terão sido negociados e o seu futuro acertado numa (ou várias) conversa(s), num contexto de informalidade desarmante.
Dessa informalidade resultou o chamado “bico d’obra”, estando o atual executivo, com Ricardo Rio aos comandos, confrontado com um problema sério, já que não pode, como era sua intenção, candidatar a fundos comunitários a reabilitação de um espaço que nem consegue provar ser seu (porque não o é, de facto). Com isto perdem sobretudo as famílias que lá vivem, as verdadeiras vítimas desta irresponsabilidade, que esperam e desesperam por condições de vida dignas.
A arquidiocese, por seu turno, sem negar a existência de abordagens e conversações sobre o destino dos terrenos, alega que outras parcelas de terrenos públicos seriam cedidas como compensação para aquilo que nunca deixou de entender e continua a considerar como uma “usurpação”. De resto, sublinha que insistiu repetidamente na formalização das conversações para que tudo ficasse esclarecido, tendo sido surpreendida pela forma inopinada como o anterior executivo socialista acabou por desonrar o compromisso verbal de cedência dos terrenos do campo de futebol do Bairro Nogueira da Silva.
Ora, de todo este contexto isotérico resultará, a crer em Artur Feio, que tivemos responsáveis pelo município, o que é afirmado e sublinhado como argumento político pelo PS atual, a negociar, sem prova ou rasto formal, terrenos públicos como contrapartida para a aquisição de terrenos privados. Terrenos privados esses que, novamente sem prova ou rasto formal, acabaram por ser ocupados pela autarquia, sendo neles contruído um bairro social onde vivem várias famílias.
Onde fica o princípio da legalidade nisto tudo? Onde estão os mais simples princípios da boa gestão da coisa pública? E a tão propalada transparência dos atos públicos? Tudo consumido por um buraco negro, ou melhor, opaco, onde fica à descrição do vereador Artur Feio contar a história, chamar as testemunhas (Mesquita Machado) e oferecer a solução: a Arquidiocese que seja boazinha, como mandam os bons princípios católicos, e que doe os terrenos. Quanto amadorismo, quanto desrespeito institucional e quanta impreparação para se apresentar aos bracarenses como a alternativa que tanto reclama ser.
Talvez nesta quadra pascal seja tempo de recordar a Artur Feio que, como Fernando Pessoa bem notou, Jesus Cristo “não sabia nada de finanças, nem consta que tivesse biblioteca”, e talvez por isso, entre nós, elejamos representantes que cuidem não só de saber fazer contas, mas também de as prestar aos eleitores. Até porque, na Bíblia, não me lembro de ver referido que devamos doar “70x7”, mas apenas perdoar, nessa ordem de grandeza, quem gritantemente nos ofende.
Perante tanto desacerto, sobra-nos o pertinente e igualmente bíblico mantra: “Perdoai-lhes Senhor, porque não sabem o que fazem”.

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