Correio do Minho

Braga, quarta-feira

(Cá entre nós e que ninguém nos ouça)

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2014-02-23 às 06h00

Carlos Pires

1. Se há algo que os tempos passados recentes nos mostraram é que o segredo para a sobrevivência, nas sociedades modernas, radica na nossa capacidade de adaptação às (rápidas) mudanças que se geram, em todos os campos ou áreas. A imprevisibilidade é “quem” mais ordena; habituámo-nos a que o estado das coisas hoje pode não ser o estado das coisas amanhã, que é difícil estabelecer estratégias que joguem com âmbitos temporais médios ou longos. A vida tornou-se uma autêntica montanha russa, com altos e baixos, mais ou menos acentuados, com loopings e curvas, à esquerda e à direita. É preciso manter o equilíbrio; é essa a regra para nos mantermos “à tona”. E vivos.
Nesta linha de pensamento, coerentemente, já não nos podem causar pasmo e admiração quaisquer alterações radicais de conteúdo nas declarações provindas de entes com responsabilidade - sejam eles pensadores, doutrinários, políticos, jornalistas, etc, -, que afirmam amiúde algo contrário ao que alvitraram pouco tempo atrás.
Registo o seguinte:
- O jornal ‘Financial Times’, na sua edição da passada segunda-feira, referiu que Portugal “é o herói-surpresa” da retoma na Zona Euro; que apesar do 'penoso ajustamento económico' que está a ser feito, no âmbito do programa de resgate internacional, o país está a conseguir dar a volta à crise, em grande parte devido ao sector do turismo e ao aumento das exportações.
- “Portugal cresce mais do que a Alemanha no último trimestre 2013”, anunciam os arautos da economia mundial, contrapondo os 1,6% no PIB nacional revelados nos últimos dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística, face aos 0,4% alemães.
- Christian Schulz, economista sénior do Berenberg Bank, classifica mesmo Portugal como ‘a nova vedeta do crescimento na Zona Euro’.
- Por seu turno, a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, disse que “se está a fazer história”.
Será que ouvi bem? Será que li bem? Nós somos os heróis-surpresa? As vedetas? É do nosso país que falam? Percebo que numa época em que aparentes e estáveis democracias, na dita europa civilizada, e de um dia para o outro, colapsam e descambam em autênticas guerras civis - veja-se o que se está a passar na Ucrânia -, Portugal possa afinal destacar-se pela positiva. Mas daí a rotularem-nos com tão nobres e elevados epítetos - sim, a nós que ainda há pouco tempo eramos um dos países que, a par da Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, fazia parte do grupo PIIGS! (acrónimo pejorativo e que significa ‘PORCOS’) -, só pode fazer-nos abrir a boca de espanto e de incredulidade. O que é que aqueles tipos andam a congeminar? Ou será que lançam foguetes como forma de expiação das culpas de uma gestão ruinosa da crise?



2. Já em crónicas anteriores, publicadas neste mesmo espaço de opinião, fui defendendo que devemos acreditar no futuro de Portugal e na força das suas gentes, preterindo o discurso pessimista que, quanto a mim, nada ajuda. Mas daí a ouvir dizer que somos o país-surpresa, o país-vedeta, isso sim constitui, e em si mesmo, uma surpresa que, com sinceridade, não considero séria.
O nosso país vê sair, diariamente, cerca de 200 jovens licenciados e outro tipo de emigrantes. O nosso país foi obrigado a cumprir um (demasiado) duro programa de ajustamento, que deixou um rasto de destruição: milhares de empresas e particulares insolveram, o desemprego mantem-se numa absurda taxa de 15%, os salários e as pensões diminuíram e as desigualdades agravaram-se. E, pasme-se, a divida de igual forma aumentou.
Há alguns sinais positivos desde o final do ano passado. São bons indicadores e que bom seria que se mantivessem. Mas temos que ter todos a consciência de que batemos num fundo, tão mas tão fundo, que a comparação é de quem subiu 1 ou 2 andares depois de ter caído uns 30. Somos heróis, mas somos uns heróis exauridos e paupérrimos a quem, no futuro, não será dado espaço ou tempo para descansos. Esta é a realidade, sem histerias ou frenesis bacocos, que não convém escamotear ou esconder, sob pena de não conseguirmos, enquanto país, pensar sobre as reformas que precisamos de fazer para nos adaptarmos a estas novas realidades.
(E escrevo esta crónica em tom ‘baixo’, só de mim para si, para nós, não vão estas palavras chegar aos ouvidos dos “mercados”, aqueles carrascos, temperamentais - o Adamastor com o qual nos confrontamos nos dias de hoje -, o que certamente dificultaria ainda mais a travessia deste sem fim Cabo das Tormentas. Chiu.)

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