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Camas de Cartão

Contra a violência doméstica

Camas de Cartão

Voz aos Escritores

2020-01-10 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Sou a Florinda, voluntária de apoio àqueles cujo telhado é o tecto do Mundo. A Noite de Reis envolve-nos num frio gélido, um frio que fere a pele, acanha os corpos, enubla o respirar. Sinto-me uma pastora do Presépio, o estábulo de Belém onde nasceu o primeiro sem-abrigo da Cristandade. Eu e os meus colegas trazemos a ceia aos desamparados, gente a quem a vida não sorri, como os transeuntes que lhes atiram olhares de desdém, trejeitos de enfado, lhes negam a empatia e a compaixão, ignorados de que os sem-abrigo assim o são não por opção, mas porque as rasteiras da desdita os empurraram nessa paupérrima condição, ignorados de que os sem-abrigo são seres humanos a quem se negou o estender da mão. Homens e mulheres acobertados pela solidão.
Chamo-lhes nomes de árvores e a elas nomes de flores. São chamares amistosos que trazem pitadas de alegria primaveril a um cenário pintado de pobreza, contornado de amargura, matizado de tristeza, um palco de tragédias isento de comédias, parco de risos, inundado de lágrimas, das chuvas torrenciais que lhes alagam as escassas vestes e as camas de cartão, onde pelas noites tolhem os corpos desalentados, encharcados, e no breu repousam a desilusão. Dormem para esquecer, para apagar, nunca para sonhar. Há noites em que o dormir é inquieto, um dormir de olho fechado e outro aberto. Os vícios de alguns cobiçam os trocados alheios. É a desgraça a roubar a miséria.
O Pereira nunca soube o que era um lar. A violência em que cresceu, as agressões paternas, as desprotecções maternas, levaram-no, ainda gaiato, a fugir de casa. Nunca nenhum dos progenitores o procurou. Não tem estudos. Não tem família. Não tem tecto. Não tem trabalho. Vive o tempo no arrastar dos dias. Vive sem sustento. Vive num tormento. Tem um único amigo, um enorme cão que se espraia num sofá Ikea vizinho da tenda, uma acomodação inusitada naquele cenário, um objecto saído das entranhas desses gigantes empresariais que engolem os postos de trabalho, que vendem a ilusão da barateza pela exploração da miudeza, a industrialização a prescindir da mão-de-obra trocada pelo faça você mesmo, transporte você mesmo, monte você mesmo, a modernização a roubar o pão nosso de cada dia a muitos como o Pereira. O cão é meigo, tem o olhar pingado do dono, enrola-se como ele, sobre si mesmo, num novelo de resignação, num estar de protecção. Dou-lhe um biscoito, o bicho lambe-me a mão num escorrer de gratidão.
A Dália é bonita. Os andrajos não lhe furtam a beleza da juventude. Têm dois filhos pequenos. Deixou-os à guarda do pai. Não tinha condições de os criar. Não os abandonei, afirma, determinada, a sacudir as bátegas da culpa, Foi por amor que os deixei, nada tenho para lhes dar, nada lhes posso pagar. Visita-os numas horas de maternidade contada, uma maternidade penhorada, desejando que chegue o dia em que terá uma casa, um ninho de aconchego onde habite a concórdia e o sossego.
O Palmeira tem sessenta anos. Foi engenheiro informático. Viajou pelo Mundo. Ficou desempregado. Perdeu tudo. Não arranja emprego. Dizem que sou velho para trabalhar, não tenho como me sustentar. Fala-me do Mundo, dos sítios por onde andou, dos lugares que visitou, das mulheres que amou. O Palmeira espera que a sorte lhe abra o fecho éclair da tenda, porque à porta não pode bater, como aconteceu ao Macieira, um sem-abrigo da sua idade apanhado por um olheiro que o fotografou e transformou em capa da Vogue, e que para a famosa revista fez campanhas publicitárias. A vida é uma questão de azar ou de sorte, não é, Florinda?
Sim, qualquer um de nós pode ser um deles, um sem-abrigo, um sem-amor, um sem-ninguém.
A Violeta tem dias que julga ser rainha, tem dias que diz ser vagabunda, tem horas que ri, tem horas que chora embrulhada num manto axadrezado e puído, na cabeça uma coroa de princesa Made in China, na mão ossuda de unhas partidas um cajado que faz as vezes de ceptro, o pau onde se apoia na falta de outro apoio. A Violeta garante que um dia voltará a ter um castelo, uma fortaleza onde será soberana, até na meteorologia mandará, um palácio de mordomias, sem frio, sem correntes de ar, sem chuva, camas de dossel, edredons de penas, casa de banho aquecida, com polibã e bidé, cozinha apetrechada, mesa farta e abençoada. Verdade, Florinda?
Digo-lhe que sim, estendendo-lhe uma malga de caldo fumegante, sopa que vou distribuindo por mãos abertas, mãos trémulas de frio, mãos carentes de afecto, mãos de Mundo vazias. Consciencializo-me de que o voluntarismo é uma benesse para esta gente, assim como os abrigos temporários, as cantinas de refeições dadas, as roupas em segunda mão ofertadas. Consciencializo-me que é preciso mais, muito mais, uma política de intervenção eficaz que substitua o assistencialismo, medidas oportunas de inclusão que tirem da rua os mais de três mil sem-abrigo que há Portugal. São gente que querem vida decente e a Constituição dá-nos direito ao pão e à habitação.
“As raposas têm tocas, as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Mateus, 8:20.

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