Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Caminhada com História

O Estado da União

Conta o Leitor

2017-07-22 às 06h00

Escritor

Alice Duarte

Naquele dia, levantámo-nos, já era tarde para o que queríamos. Não que seja o meu costume, mas andava cansada e, também tinha deixado tudo mais ao menos pronto. Só faltava grelhar os bifes de peru, abrir o pão, colocar água e fruta na mochila. Já tinha prometido a mim mesma que não me ia chatear com os atrasos do Beto. Era sempre a mesma coisa! A arrancá-lo de casa, e ele a dizer que já está pronto, quando nem vestido está e eu a apetecer-me fazer nem sei o quê. Lá saímos, à pressa, quase em cima da hora, às tantas iam partir sem nós e não, não senhor, não vais parar para meter gasolina, só faltava mais essa, que a gasolina há-de bastar e o que interessa é chegar! E o que eu mais queria era chegar, chegar a tempo e horas de fazer o que mais gosto de fazer, que é ir, ir andar por esse campo fora, por esses montes afora, ao ar, outros ares, ar fresco e livre. Tínhamos uma caminhada à nossa espera, em terras da Maria da Fonte, terras poderosas e mágicas, essas as da Póvoa de Lanhoso! Eu não sou mulher da urbe. Às vezes, parece-me que morar na cidade de Braga e mais ainda dentro de um apartamento, é como morar numa grande cidade como Nova Iorque (se bem que nunca lá estive, mas imagino como seja). Passam-se tempos e tempos sem se sentir a terra, sem se tocar a terra, sem se cheirar a terra, sem se ver o nascer do sol, sem se ver o pôr do sol, sem se verem as estrelas. Sem! São muitos sem!
A caminhada, de nome: “Caminhada com História”, organizada pela Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, para os passados dias 15 e 16 de julho, prometia! Não podia ser melhor, atendendo ao panfleto: “fim-de-semana de evasão pelo território Povoense, explorando vários pontos de interesse patrimonial na típica paisagem minhota, caracterizada pelos seus relevos acentuados e vales encaixados e verdejantes, formando verdadeiros cenários idílicos, que pretendem fazer despertar sensações únicas em cada um dos participantes; guias no terreno; oferta do passaporte da rede de monumentos e sítios da Póvoa de Lanhoso; entrada e visita guiada ao Castelo de Lanhoso; visita ao Castro de Lanhoso; visita à igreja do Horto; entrada e visita guiada à Sala de Interpretação da Filigrana; entrada e visita guiada ao Centro Interpretativo Maria da Fonte; entrada e visita ao Theatro Club; entrada e visita guiada à igreja românica de Verim; entrada e visita guiada à capela de S. António, da Casa do Requeixo, em Frades; visita à capela de S. Sebastião de Verim; visita ao núcleo megalítico de S. Mamede, Castro de S. Mamede, sepultura escavada na rocha, Castelo Roqueiro e Capela de S. Mamede; chá e cavacas (doce típico da região); moscatel e bananas; café e bebidas; jantar de sábado; pequeno-almoço de domingo; almoço de domingo; espaço para banhos; pernoita (acantonamento) no Colégio Teresiano de Verim (em saco cama); animação musical durante o jantar; seguro de acidentes pessoais; reportagem fotográfica digital da atividade e verde de honra no final da caminhada. E tudo isto, a 15 euros.
Pensei, isto é para mim e este apego por dois dias, incluindo pernoita, em acantonamento, melhor é, pela simplicidade, mais a casar com a natureza. E agora a escrever isto, não tem muito a ver, mas estou a lembrar-me de quando a Tia Maria vinha de França, não é que dormíssemos no chão, mas éramos oito a dormir na mesma cama. Eu, a mais os meus primos e primas. Não teria mais que sete, oito anos, eramos todos pequenos. Dividíamo-nos pelos pés e pela cabeceira, não sei se em conta certa, da cama do colchão de palha. Devia ser tão divertido! Não tenho lembranças de não o ser.
Contar o que aconteceu nestes dois dias desta “Caminhada com História”, dias solarengos e quentes, se me apoiar em factos, não é difícil de contar. Cumpriu-se o programa, tudo nos deram, nada faltou, moscatel do melhor e fresquinho, a saber tão bem, acompanhado de bananas (eu ainda disse em jeito de brincadeira, seus copiões e ouvi boa resposta, e diga lá que não fazemos bem); noutra altura, chá de salva fresquinho, com cavacas, parecia acabadas de fazer; almoço de domingo ímpar, servido com toda a simpatia e amabilidade pelo gerente do restaurante do Castelo da Póvoa de Lanhoso; bebidas geladinhas, servidas num outro momento, num café ao longo do percurso (que bem que soube), e a passarmos por todas aquelas terras e património tão lindo!. Maravilhoso! Maravilhoso! Mas muito mais do que todos estes bons factos (e não estão todos aqui, faltam muitos) o que não saberei bem contar, foi o que senti, as emoções que buliram comigo. O que senti, foi uma vivência humana, emocional, única. Graças aos seres humanos que encontrei! A começar pelos dois guias, profissionais da Câmara da Póvoa de Lanhoso: o arqueólogo Orlando Fernandes, que também, de quando em quando, ao longo do caminho, nos presenteava com história e explicações acerca do que víamos, e o técnico Francisco Machado, do Theatro Club, que tão apaixonadamente nos deu a conhecer o Theatro, esta também sua casa. Sempre disponíveis e atentos, desde o início, às necessidades de cada um dos caminhantes, e às de todos no grupo, acolheram-nos como só quem sabe e ama muito o que faz, o sabe e quer fazer. Conduziram-nos numa caminhada, que mais do que no terreno, se fez dentro de cada um de nós, a presentearem-nos com um bem-estar tão sentido que ficou a grande vontade de voltar às terras da Póvoa de Lanhoso!
Abundam factos mas acima deles, o afeto humano. Ser é pertencer. E naqueles dois dias, algo de profundamente bom e humano aconteceu. E não foi só comigo! Às vezes, acontecem-nos coisas tão boas, que essas sim, dão sentido à vida. Estarmos todos juntos, a fazermos o mesmo caminho, a ajudarmo-nos uns aos outros, a conseguirmos chegar juntos. A Flor, pessoa linda, linda, cheia de vontade de viver e usufruir, a puxar por nós! Há que ir, enquanto pudemos e queremos! Senti-me pertença, gente da minha gente, gente do meu coração. Não interessa de que terra vimos, o que fazemos na vida, qual a nossa crença religiosa, a nossa ideologia política, a nossa identidade sexual. No fundo, somos todos iguaizinhos, queremos todos o mesmo! Sermos estimados, tidos em conta. Éramos cerca de quarenta pessoas, eu e o meu marido não conhecíamos ninguém do grupo, assim como outras pessoas. E fomos caminhando, guiados por duas pessoas de se lhes tirar o chapéu!
Do alto de S. Mamede, o ponto mais alto da Póvoa de Lanhoso, do posto de vigia, conseguimos avistar o mundo todo em redor e mais além. O vigilante, amável e bem atento a tudo e a todos, com a responsabilidade à flor da pele, não deixava que ninguém passasse da linha metálica, não fosse cair por ali abaixo. Sozinho, ali, horas a fio, via-se mesmo com vontade de falar com alguém, explicava-nos tudo o que dali se via. E até as torres de Ofir conseguimos avistar, mal, mas lá se viam um bocadinho. Que são necessários, mesmo assim, uns binóculos melhores! O mar, em maré de céu mais limpo, que se consegue avistar e bem. A cidade de Fafe, lá estava em pleno. Dali, vê-se tudo e tanta coisa. Vêem-se sete senhoras: a do Sameiro, a do Minho, a do Castelo, a do Pilar, a do Porto de Ave... . A Isabel, que era quem cuidava de que ninguém ficasse para trás, fixou-as a todas. E de lá, que se vê, puro e limpo, o acordar do sol e o seu deitar, em despedida meiga, sem estorvo algum. Claro, pudera! Para deixar aos homens a vastidão da noite, ali, tão perto no céu, com todas as estrelas, e a tocar-lhes, e a vê-las.
E já cá em baixo, olhei para cima. Aos olhos do vigilante, devia parecer agora tão minúscula. Ergui muito os braços no ar, estiquei-me toda, movendo-os de um lado para o outro, para que me visse e quando me viu, gritei-lhe obrigaaaaaaaada e de lá de cima, ouvi: bom regreeeeeeesso. Com certeza se referia ao regresso, à minha casa, em Braga. De onde não posso avistar nem o mar, nem o acordar do sol, nem o seu deitar, nem as estrelas a brilhar. Lar, lar é na natureza, aonde eu me sinto bem melhor! E se for com os meus, tanto melhor. E se for com gente que se nos dá, a pedir-nos também o melhor de nós, melhor ainda. Sentimo-nos bem, aonde podemos ser nós. Aonde podemos ser quem somos, por dentro, no nosso verdadeiro querer. Foi como eu me senti!
E hei-de regressar!

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