Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Caminho perigoso

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2018-10-23 às 06h00

Jorge Cruz

“Mude suas opiniões, mantenha seus princípios. Troque suas folhas, mantenha suas raízes”.
(Victor Hugo)

O presidente da Câmara de Braga justificou o aumento do valor final (?) da reabilitação das instalações do antigo Parque de Exposições, agora Fórum Braga, com três “ordens de factores”, mas colocando particular ênfase na urgência em iniciar a obra, para não perder o financiamento comunitário.
As explicações de Ricardo Rio, deveras confusas, começaram por referir a existência de “um estudo prévio por parte de um arquitecto, que acabou por ser o que realizou a obra”, facto que, como se compreende, não esclarece coisa alguma, bem pelo contrário, só confunde. Falou depois no concurso para denunciar que o vencedor “não cumpriu com as suas responsabilidades”, que “atrasou vários meses”, e que “nós estávamos pressionados pela urgência, atendendo aos fundos comunitários”.

Segundo o edil, “essa curta disponibilidade de tempo condicionou o detalhe na execução do projecto e, já com a obra em execução, deparou-se com alguns aspectos que não tinham sido acautelados” o que contribuiu para a derrapagem de cerca de 1,5 milhões de euros.
Rio ainda tentou baralhar mais os jornalistas e, através deles, a oposição e os bracarenses, ao insistir na tecla já gasta, mas nem por isso mais verosímil, de que inicialmente não estava prevista a intervenção no grande auditório mas “que seria despropositado não o fazer”. Em consequência, concluiu que o pagamento de cerca de mais de um milhão e meio não corresponde a “uma derrapagem porque estamos a falar de uma série de intervenções que não estavam previstas”.

O raciocínio de Ricardo Rio sobre este imbróglio é, de facto, extraordinário e, nessa medida, creio poder vir a constituir um riquíssimo caso de estudo, uma vez que abrange áreas tão diversificadas como o planeamento, a responsabilidade, política - e não só -, a transparência e a verdade.
A questão da premência no início da obra – convirá recordar, a propósito, que o seu começo foi adiado por alguns meses – denota, obviamente, que o planeamento não é o forte deste executivo municipal. Mas tentar lançar alguma confusão com o facto de o arquitecto que produziu o estudo prévio ter sido o mesmo que executou a obra, essa não lembraria o careca, para usar uma expressão frequentemente utilizada por aquele que é hoje o mais alto magistrado da nação!

Mais grave, bastante mais grave, é a acusação de que o vencedor não cumpriu as suas responsabilidades e atrasou vários meses!
A ligeireza com que Ricardo Rio refere o alegado incumprimento do vencedor do concurso é extraordinária. Então não há mecanismos legais para responsabilizar o ou os culpados? O Município aceita e avaliza amistosamente a situação, ou seja, pactua com os alegados comportamentos prevaricadores sem acautelar o legítimo interesse público? E não se promovem ou accionam as penalizações que o caso justifica? No mínimo, é estranho, muito estranho…
Do mesmo modo, os tais aspectos que não tinham sido acautelados, derivam ou de deficiências do projecto ou da pressão decorrente dos atrasos. Em qualquer dos casos, parece-me que, também neste caso, há que retirar ilações, até porque a culpa não deve morrer solteira.

Conclui-se que no teste da primeira grande obra – uma reabilitação absolutamente necessária desde há anos, porque determinante para a estrutura municipal poder cumprir cabalmente a sua missão – o executivo de Ricardo Rio não ficou bem na fotografia. Não se trata, obviamente, do resultado final até porque, nesse particular, e sob o ponto de vista estético e de funcionalidade, as condições que as ins- talações agora oferecem são de excelência.
Os maus resultados desta primeira prova de fogo advêm da forma desastrada como o executivo geriu a complexidade das questões que se colocam a uma empreitada desta natureza. Claramente, as coisas não correram bem e é precisamente isso que deve ser assumido, com humildade democrática e sem o recurso a desculpas mais ou menos esfarrapadas, mais ou menos inverosímeis, as quais só contribuem para a descredibilização da política e dos políticos.

O Ricardo Rio da oposição, há anos atrás, percebia – e defendia acerrimamente – que este deveria ser sempre o modus operandi dos agentes políticos. Aliás, muitos dos conceitos que então muito justamente apregoava como seus, com a sua chegada ao poder acabaram por esmorecer, em alguns casos até ao abandono. Ou seja, em última instância, não resistiu à possibilidade que o poder frequentemente facilita de se transfigurar e assumir aquilo que outrora condenava nos outros. Sabemos que quando tal acontece nasce um hipócrita atolado na sua própria contradição.
É sempre um mau sinal, este tipo de metamorfismo radical de opinião, porque, como se tem comprovado, conduz a práticas arbitrárias, desrespeitadoras das boas condutas democráticas, as tais que abrem caminho a todo o tipo de tropelias. Muito honestamente, gostaria que não fossem por esse caminho. ?

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