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Cândido ou da desinformação

O símbolo internacional (quase universal) do amor

Cândido ou da desinformação

Escreve quem sabe

2023-10-29 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

O «Cândido» de Voltaire figurará em qualquer lista dos cem imperdíveis, ainda que eu não seja capaz de escolher cabalmente as 99 obras remanescentes. Cândido é expulso da propriedade senhorial do tio, por conta de um beijo à prima. Surpresas e peripécias que encadeia, dada a sua cândida natura. Divertimento filosófico em torno do Bem e do Mal, com o Bom Deus em tela de fundo, sob vaias, porque não corresponda a Criação ao Criador. Dilema do Grande Mal, que Leibniz tratava como pressuposto necessário de um Bem maior subsequente, visão optimista a que Voltaire era avesso.

Dos límpidos da Filosofia para os fétidos da Vida: a mortandade de 7 de Outubro, de par com o pesadelo pegado de Gaza, serão o quê? Dois males de topo de escala? E pelo seguimento o quê: teremos que rever o padrão, como quem sobe alçados? É que eles não se entendem, é ver o caso ridículo do pátio do hospital. Que fica de pé quando Israel bombardeia? Nada, salvo um amontoado de escombros. Que bicha de pólvora seca sionista faria aquele entalhe no pavimento, quase a picareta, como quem procura uma fuga de água? E as vítimas? De cento e tal a quinhentas e picos! Nem em Gaza há tanta cabeça por metro quadrado!
Realidade que a “rua árabe” não leva em conta. Que franjas da “rua europeia” de todo desconsidera. Que «os exércitos mentem», advogava a líder parlamentar do partido francês France Insoumisse (FI), descartando que o episódio resulte de engenho defeituoso de oficina semi-amadora de milícia palestiniana. Mas é extraordinário! Se um exército regular mente, por que virtude um braço armado se atém aos mais cândidos da verdade? Mais peculiar ainda: para que as atrocidades cometidas pelo Hamas caiam sob a designação de «crimes de guerra» e não de «crimes contra a humanidade», insiste a FI que o movimento palestiniano é uma força militar, não uma matilha terrorista. Ora, neste um para um da mentira e da desinformação, teríamos pelo menos empate técnico e a verdade de folga, a águas, à conta de uma indisposição.

Vestimos mentiras aos milhões, nós também, e assim fomos ao Iraque, e assim espetamos a sabotagem do gasoduto nas costas do Putin, sabendo, quem precisava de saber e fora informado, que a peça tinha encenador e protagonista distinto. Vestiremos ignorâncias aos milhões, também, logo que não sejamos capazes de remontar ao final da primeira guerra mundial, à desagregação do império otomano e a uma partição pressuposta da Palestina entre palestinos-árabes e judeus – porque já então viviam judeus por essas bandas.

Opôs-se a elite árabe-palestina. Quem avançou contra quem, já para mais de cem anos? Nos começos da aventura nazi, quem procurou junto de Hitler as bênçãos para um estado árabe-palestino? Desesperos do Grão Mufti de Jerusalém, ante a derrota de Rommel em El Alamein! Tivesse o Afrika Korps vencido o obstáculo e nada defenderia os judeus da Palestina do mesmo triste desfecho dos judeus europeus.
Guerras nos precedem e que bem quereríamos não deixar por herança. Guerras que embalamos, porque justa seja a causa que de monóculo procuramos no vazio. Guerra que preferíamos que não fosse de civilizações, mas que é, porque se equivoca quem pensa na Humanidade à escala do Planeta, e a Civilização em singular de homogénea composição. Quem de si não clama «por São Jorge, por Portugal», «por Santiago, por Castela», «Montjoie, Saint Denis», estranho passa cerrando fileiras com quem clama «deus é grande» em língua alheia, tanto mais que ateus, pelo maior.
Cândidos, talvez, para fugir aos «anjinhos», que é termo com muita história. Para lá de vácuos de circunstância.

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