Correio do Minho

Braga,

Cansaço

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2016-07-02 às 06h00

Escritor

Ana Maria Monteiro

Sinto-me velho. Não é de espantar, estou mesmo velho. Velho, usado, gasto, cansado. Sei que o meu fim se aproxima, literalmente a passos largos. Dentro de dias não serei mais do que uma recordação saudosa - pelos momentos partilhados, pelos caminhos percorridos, pela dificuldade em substituir o conforto que proporcionei. Depois serei rápida e definitivamente esquecido. Talvez desperte algum lampejo de memória nostálgica perante outro que se me assemelhe, mas mesmos esses momentos serão cada vez mais raros e de curta duração.
Tive uma vida longa e bem preenchida. Poucas vezes apreciei o luxo de ficar calmamente em casa sem fazer absolutamente nada e apenas regalando-me no bem bom do dolce far niente.
Percorri muitos caminhos, passei por muitos sítios diferentes, repeti muitos passos, muitos trajectos que levavam invariavelmente aos mesmos locais. Tropecei em muitas pedras, mas não tinha onde as guardar e, talvez por isso e porque nunca me ocorreu, não construí nenhum castelo. Também aprendi a evitar algumas dessas pedras.
A vida proporcionou-me de tudo: dias de sol e dias de chuva, momentos de lazer e de grande ocupação, glória e esquecimento.
Senti a dureza e a suavidade de tudo pelo que passei e cada percurso ajudou a vincar com maior ou menor profundidade, cada um dos meus sulcos, das minhas rugas, dos meus traços, agora incontornáveis, de velhice.
Já sinto o féretro que me aguarda e o meu sentimento é de resignação e aceitação, pois sempre soube que este dia chegaria.
Aliás, representa até um certo alívio, estar cansado é algo que acaba por cansar também a alma e com esse cansaço, a vida vai perdendo a graça e o fim deixa de se afigurar como a uma sentença e antes começa lentamente a representar a libertação desse fardo tão pesado que é estar vivo e a uso.
Fui concebido na e para a classe média. Nunca poderia ter sido encontrado num local luxuoso. Nesta decrepitude a que a idade me condenou, custar-me-ia aceitar a ideia de passar a ser um sem abrigo, ou até mesmo um pobre, prefiro sem dúvida morrer com o meu estatuto mediano de que nunca saí.
Escolher não fazia parte do meu destino, ser escolha sim. E fui escolhido e posso até dizer que bem tratado, apesar de alguns percursos mais difíceis, por serem agrestes, escorregadios, desconfortáveis ou sinuosos.
Nasci anónimo e anónimo deixarei esta vida - como tantos. Como quase todos.
Amanhã ou depois já cá não estarei para dar o meu testemunho que é tão parco. O momento está ao virar da esquina, diria figuradamente, mas já nem essa esquina dobrarei de novo.
Quase posso adivinhar como e qual será a embalagem em que esta carcaça velha e inútil será colocada para o seu destino final.
Resta-me despedir-me pois pouco mais haveria para dizer e há coisas tão íntimas que, mesmo sabendo que morrem connosco, preferimos ainda assim levá-las sem chegar a partilhá-las, tal como calos nos pés.
O meu dono está a olhar para mim, no seu olhar consigo ler alguma nostalgia, alguma dificuldade em tomar esta decisão, ao meu lado encontra-se um par de sapatos, por estrear, ainda desconhecedor da suas necessidades a que terá de adaptar-se com provável sofrimento para ambos, mas é novo, bastante mais moderno e apresentável do que eu. A caixa em que ele acaba de chegar é a mesma que servirá para me levar.
Para sempre.
Foi bom. Adeus.

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