Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Cansada destas políticas

A saia comprida

Ideias

2010-10-31 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Finalmente selou-se o que todos previam: um acordo Governo/PSD para a viabilização do Orçamento de Estado. Foi uma operação resultante de um trabalho de “técnicos”, segundo li nos jornais, embora os actores deste filme tivessem sido, sobretudo, políticos. Pronto, também não é preciso estar com grandes exigências. O que interessa é que há acordo. As guerras partidárias seguem dentro de momentos. Por enquanto, fazemos um intervalo para compromissos com mercados externos e com umas eleições presidenciais caseiras. No primeiro semestre do próximo ano, regressará a confusão aos palcos da política partidária. Sinto-me cansada de tudo isto.
Os jornais de ontem eram inequívocos. A manchete do Expresso era a seguinte: “Teixeira fecha acordo em casa de Catroga”. O “Diário de Noticias” titulava: “Acordo para o Orçamento entre Governo e PSD fechado à noite em casa de Catroga”. Na revista de imprensa de ontem na RTP1, sublinhei o facto de não haver imagens que documentassem o encontro nocturno. Ao final da manhã, Eduardo Catroga elucidou-me. Mostrou aos jornalistas uma fotografia “tirada às 23h19” (gosto desta precisão horária), através de um telemóvel que mostra os dois políticos, perdão os dois “técnicos”, a assinarem um documento. Uma imagem vale mil palavras. Mas aqui também será aconselhável atender ao verbo.
É bom não esquecer o que disse ontem Teixeira dos Santos: “(este) acordo tem consequências”. Financeiras: é o que quer dizer o ministro das Finanças. Políticas: pode atirar a oposição. Na edição de ontem do “Expresso”, num artigo intitulado “Acordo de Outono, crise na Primavera?”, lia-se isto: “os sociais-democratas vão ser ferozes a vigiar a execução orçamental nos primeiros meses de 2011”. E mais à frente acrescentava-se que “Pedro Passos Coelho não perderá tempo a concertar com Paulo Portas uma moção de censura ao Governo”. Parece não haver muitas dúvidas que este será um intervalo para as eleições presidenciais que ocorrerão a 23 de Janeiro próximo. A partir daí, tudo pode andar muito rápido.
Por enquanto, o tempo é de alguma tranquilidade. Na terça-feira e na quarta-feira, dias em que a Assembleia da República discute o Orçamento de Estado, ninguém estará particularmente inquieto. Porque tudo está praticamente decidido. Eu sinto aqui algum mal-estar. Não me agrada olhar para o hemiciclo e ver lá deputados que mais parecem mover-se por fios esticados por mãos alheias. À noite, quando me sentar a ver os noticiários, vai ser difícil sentir nas palavras que os deputados pronunciam, uma inabalável convicção pessoal. Tudo vai soar-me a frases ocas. E isso é péssimo para a democracia representativa. Percebo que seria imprescindível chegar a um acordo para a aprovação do OE. Mas lamento muito que não se reconheça aos nossos deputados maturidade suficiente para negociarem este dossier.
Para que serve um deputado? O que se espera de um ministro? Que motivações levam uma pessoa a filiar-se num partido? O interesse público, a vontade de construir um país melhor, o empenho em ajudar a resolver problemas colectivos… Estas seriam as respostas mais óbvias, mas começo a desconfiar que estão muito longe daquilo que grande parte da classe política pensa. Ontem, a jornalista da RTP Daniela Santiago que acompanhava na Assembleia da República a apresentação deste acordo formal Governo/PSD, escrevia isto no Facebook: “Depois desta manhã na AR... percebo porque razão até o Céu ‘chora’!” Quem conhece os bastidores da política conta histórias inverosímeis daquilo que por lá se passa. Sinto-me triste perante este estado de coisas.
Em clima de crise, precisamos de ânimo. De gente que nos contagie com entusiasmo. Ontem, no “Expresso”, um grupo de estudantes e ex-estudantes da Universidade do Minho falava de uma empresa de sucesso que criaram com poucos recursos: a Seegno. “Podemos divertir-nos muito a trabalhar”, disseram eles ao jornalista. É isso mesmo. É por aqui que Portugal pode avançar. Precisamos de gente assim. Em todo o lado. Seria bom que a política nos desse exemplos assim.

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