Correio do Minho

Braga,

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Capitalismo assistido

Muita desconfiança é patológica

Ideias

2012-03-30 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

As últimas duas semanas foram ricas de ensinamentos sob o ponto de vista de análise política. A Lusoponte cobrou a dobrar o uso da ponte 25 de Abril, já paga e repaga. A EDP resistiu à limitação das rendas excessivas e provocou a queda do Secretário de Estado da Energia. A REN repercute sobre os consumidores os preços pagos aos municípios pela passagem dos cabos elétricos.

Verificou-se também que os preços dos produtos petrolíferos dispararam, embora o preço do barril de petróleo não tenha subido da mesma forma. Constatou-se ainda que a renegociação dos contratos de parcerias esbarrava com cláusulas que blindavam as alterações, introduzidas por grandes escritórios de advogados que vivem á custa de negócios com o Estado.

Noticiou-se o que a Associação de Juízes iria iniciar uma ação contra membros do governo anterior porque tinham abusado da sua posição e feito gastos excessivos em telemóveis, cartões de crédito, ajudas de custo e viagens.

Perante isto, é oportuno fazer uma pergunta: quem manda, ou como sublinha Dahl:Who Governs? Estamos convencidos que o país, no fundo, parece ser governado por algumas grandes companhias (EDP. REN. Lusoponto, Petrogal, Galp, etc), bancos, grandes escritórios de advogados e algumas associações.

Trata-se dum processo que vem de trás, mas que as privatizações aceleraram, sobretudo quando se trata de monopólios naturais. As agências de regulação não são suficientemente fortes para impor as suas decisões.

Mas pergunta-se: qual o papel do sistema político neste processo, que os cientistas políticos denominam de capitalismo assistido, em que o Estado é instrumentalizado? O sistema político articula interesses e dirime conflitos; e além disso, a sua máquina de propaganda e persuasão indoutrina os cidadãos nesta visão do “tem que ser” para salvar a pátria.

E, se for preciso, e tem sido, convence-os de que para além de alguns doidos, eles são os verdadeiros culpados, porque preguiçosos e gastadores. Esquecem-se que foram os grandes grupos que induziram os cidadãos a gastar, convertendo-os através da publicidade em verdadeiros escravos do consumo. Os grandes grupos continuam a aumentar os seus lucros (veja-se a EDP) ou são ressarcidos das suas loucuras (veja-se o refinanciamento dos bancos).

E se for assim, para que servem as eleições? Será que podem mudar alguma coisa? A ironia da democracia é que todo este ritual que se manifesta em congressos partidários, debates televisivos, campanhas eleitorais, bem assim como a circulação entre o poder político e o poder económico, se destina a legitimar o sistema.

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