Correio do Minho

Braga, segunda-feira

'Carina', por Jorge Abel Ferreira de Carvalho

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2011-07-18 às 06h00

Escritor

Acordo sobressaltado com o som do despertador, desligo-o de imediato num gesto impulsivo quase mecânico.
- Bolas, três da manhã; quem diabo pôs esta coisa p’ra despertar a esta hora?
Procuro a meu lado; na cama o espaço vazio enche-me novamente de incertezas.
-CARINA…! CARINA…!

Chamo novamente sem obter resposta alguma.
-Aonde andará a estas horas?
Levanto-me e aproximo-me da janela que abro lentamente expondo a noite. Todos os ruídos silenciavam e a lua cheia iluminava o horizonte criando uma sensação de magia que brotava luminosa por entre corujas e pirilampos. O céu estava admiravelmente limpo e estrelado onde uma brisa corria ligeira penetrando no meu quarto, enquanto afastava suavemente as cortinas num bailado deveras engraçado.

Passei horas naquele êxtase sem que desse pelo passar do tempo, o dia amanhece e estranhamente dou por mim na mesma janela quando o sol já brilhava bem alto.
CARINA finalmente aparece, com uma beleza estonteante beija-me o rosto enquanto dá duas voltas rodopiando sobre si mesma. Seus olhos cor de avelã brilhavam num vestido branco que expunha seus longos cabelos num corpo moreno, esbelto de cintura fina, perfeito, angelical.
Fazia-me feliz só com o seu sorriso, seu toque era tudo para mim e perto dela eu levitava, podíamos voar juntos por aquela cidadezinha do interior aonde nada de novo se passava nunca, parecia parada no tempo.

As casas baixas deixavam os raios solares iluminar as ruas limpas, sem movimento.
Voamos sobre um jardim, rodeado por algumas casas mais antigas sem restauro possível, entre elas uma em verdadeira ruína, preservava uns azulejos singulares sobre uma varanda mal cuidada pelo tempo com plantas e ervas pendentes sobre as suas pedras enegrecidas.

De novo o tempo como que parou, dei por mim caminhando com ela do meu lado, de mãos dadas pelo centro que era farto em arvoredo. Conversávamos alegremente por entre bancos pitorescos que reflectiam a sombra primaveril, deixando as árvores cintilantes de um colorido prodigioso.

Tudo era perfeito; Eu, Ela e a harmonia que se completava com um aglomerado de gente proveniente do habitual encontro religioso.
Uns, os menos inibidos, conversavam em alta voz sobre as peripécias da semana, outros, os mais introvertidos, fechavam-se aos diálogos do alheio.

Caminhávamos felizes por entre as gentes trocando juras de amor eterno, fazendo planos para o futuro e era curiosa a forma como nos movimentávamos por aquelas ruas sem conhecer ninguém.
Perdi apenas uns segundos com estes pensamentos, uma coisa apenas me interessava, o centro do meu universo estava ali, junto a mim; amava aquela deusa que me aturdia os sentidos, era feliz e talvez por isso tudo parecia irreal.

Os contornos do horizonte serrano davam uma especial tranquilidade para criar a dose certa de romantismo, supliquei-lhe um beijo.
CARINA sorriu uma vez mais e beijou-me apaixonadamente!
O beijo parou; abri os olhos e estava novamente só!

A natureza selvagem que antes via, assumia agora a forma de uma mansão com traços típicos, contornos pouco salientes entre os quais sobressaia a simplicidade das varandas dos três majestosos andares.

Senti um tremendo calafrio, começava a conhecer aquilo, finalmente algo parecia real.
No seu interior, mosaicos degradados por entre azulejos desalinhados, era a imagem dos corredores intermináveis contíguos ao hall de entrada, que se prolongavam por uma vasta escadaria que dada a sua larga base, dava a sensação que subia afunilada.

…Que raio fazia ali?
…Que horrível lugar era aquele?

-ACORDE JORGE !
-Vá lá, ACORDE ! - Está na hora da sua medicação !
O sonho tinha virado pesadelo, o pesadelo tinha virado realidade.
Hospital Psiquiátrico Santa Rosa, podia-se ler claramente no bordado da bata branca da enfermeira que me acompanhava até à sala de convívio.

Estava internado, teria tido algum esgotamento?
Louco não creio que estivesse, as drogas que me davam mantinham-me num estado meio alienado e por isso era difícil manter uma consistência no raciocínio, quando dormia não sonhava, tinha alucinações.

Afinal CARINA não era real, como desejava que fosse!
-Como queria te tocar;
-Que bom seria te sentir;
-Talvez apenas te olhar;
-Poder quem sabe até sorrir;
-Impossível e irreal sempre foi esta paixão, toda a felicidade vivida era afinal fruto da minha imaginação!

Era dia de visitas, um enorme burburinho reinava na sala, fiquei indiferente, mais nada fazia sentido.

-OLÁ!
Um toque ligeiro nas minhas costas acompanhado por uma voz gentil.
-OLÁ! Sou nova por aqui, meu nome é: ……………
Viro-me de repente, dou um salto da cadeira e grito!

-CARIIIIINNA!

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