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Braga, sexta-feira

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Carta à minha família

A saia comprida

Carta à minha família

Ideias

2018-12-24 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Tive alta hospitalar. Há já alguns dias. Todavia, continuo aqui, deitada numa cama onde já não necessito de estar. Estou aqui, porque não tenho para onde ir. Os meus filhos partiram para o estrangeiro em busca de melhores condições de vida e por lá constituíram a sua família. Eu já não faço parte do núcleo central deles. Os outros parentes também têm as suas ocupações. Passarei esta quadra natalícia num hospital. Sinto uma certa tristeza. Que procurarei disfarçar.

Lembro Natais passados. A azáfama que era preparar a ceia para a noite do dia 24 e o almoço para o dia 25. E ainda os presentes. O Natal começava logo no início do mês com a compra das prendas. Com a lista sempre na carteira, lá ia comprando gradualmente lembranças para todos. E ia juntando tudo no armário da garagem para ninguém ver o colorido dos embrulhos. A surpresa tinha de ser grande. E era sempre. Depois, dedicava-me à preparação da doçaria tradicional. E lá ia passando na merceeira do Senhor João à procura das uvas passas, dos pinhões, das amêndoas, das nozes... Os mexidos tinham de se encher de frutos secos. E ficavam deliciosos. Por lá voltaria a passar para comprar o bacalhau da Noruega... Sempre do maior para cortar em postas generosas... Depois vinha a encomenda dos cacetes para as rabanadas... E da aletria... Em casa, havia também preparações a fazer. Com o pinheiro comprado, era tempo de o enfeitar e desembrulhar todos os bonecos para com eles constituir a mais bela história de um presépio que ficava ali na sala a celebrar o nascimento do Menino. Na verdade, o mês passava muito depressa.

E lá chegávamos ao Natal. Na véspera, procurava ir cedo para casa a fim de adiantar a doçaria, tarefa que haveria de se prolongar pela manhã no dia seguinte. A tarde seria para cozer o polvo e fazer o cozido com todos... Quando o sol desaparecia, a família chegava e lá se ia acomodando na sala que, àquela hora, estava quentinha e cheia de comida. A noite terminaria sempre muito tarde. No dia seguinte, todos haveriam de reaparecer para o almoço. E lá iam embora com o pôr do sol. Lembro tantos Natais assim. Com tanta gente em casa e eu a correr de um lado para o outro.
Hoje, nesta cama do hospital, imagino que este ambiente nas casas dos meus filhos e dos meus netos. A sala haverá de aquecer-se com a família agora mais alargada pelos casamentos que se multiplicaram nestes anos. Estou longe. Muito longe. De tudo. Na minha enfermaria, quase todos os doentes foram embora. Ficou uma paciente que foi operada esta semana e ontem entraram mais duas pessoas que têm estado agitadas com dores. Neste espaço, não se percebe bem quando começa o dia e quando termina a noite. O tempo passa devagar. Muito devagar.

Poderia reconhecer que aqui estou mais acompanhada, mas preferia ir para minha casa. Dizem-me que já não tenho capacidade de viver sozinha. Mas é lá que tenho as minhas memórias. E que falta elas me fazem! É delas que me abeiro para passar (bem) este tempo de solidão que é o meu. Tenho de perceber que os meus filhos estão longe e têm muito que fazer, mas custa-me atravessar estes dias sem aqueles de que mais gosto.

No hospital todos se esforçam por espalhar um certo espírito natalício. Ao longe, oiço música. As enfermeiras mostram-se mais sorridentes e os médicos mais simpáticos. Todos procuram evitar falar de estados clínicos através de palavras mais pesadas. Em silêncio, agradeço estas pontes invisíveis que todos procuram, construir. Eu sei que não sou um caso isolado. Dados oficiais dizem que seis por cento das camas hospitalares estão ocupadas com internamentos inapropriados, ou seja, pessoas que permanecem no hospital e poderiam estar em lares, em suas casas ou em casa de familiares.
Não sei por quanto tempo mais permanecerei nesta cama de hospital. Vou procurar que aconteça Natal no meu coração. E vou olhar devagar o céu para nele contemplar melhor certas Estrelas que continuam sempre presentes nas nossas vidas, agora em forma de uma Luz especial que vai iluminando caminhos mais sombrios. Desejo-vos um Feliz Natal.

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