Correio do Minho

Braga, terça-feira

Carta Aberta ao Dr. António Costa

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2015-10-19 às 06h00

Carlos Pires

Ex.mo Senhor,

Foi em finais de Setembro de 2014 que V.Ex.cia obteve a liderança do PS, após uma clara vitória, nas eleições primárias do partido, contra António José Seguro. Se estou bem lembrado, o facto do PS ter ganho as eleições autárquicas de 2013, bem como as europeias de Maio de 2014, mas apenas por “poucochinho”, nas suas palavras, motivara aquela sua candidatura. Na altura até concordei consigo: com tanta insatisfação nos vários setores da sociedade contra as políticas de austeridade do Governo de coligação de direita, como era possível não ter o PS obtido naquelas eleições, sobretudo as europeias, uma vitória mais expressiva? Algo corria mal no reino do Largo do Rato e a causa fora identificada: o líder, António José Seguro, parecia enfraquecido.

Relembro aqui as suas palavras aquando da sua vitória na liderança do partido: “este é o primeiro dia dos últimos dias do Governo e o primeiro dia de uma nova maioria de governo”. E assim, aparentemente, o maior partido da Oposição seguira rumo à vitória - o objetivo era de obter uma maioria! - nas legislativas 2015.
A animação durou até serem dadas a conhecer as sondagens: surpreendentemente era a coligação PSD/CDS-PP quem aparecia como vitoriosa. O PS de Seguro que vencera as eleições europeias de 2014 preparava-se para perder, sob a batuta de V.Ex.cia, as eleições legislativas de 2015. E estas últimas de sobremaneira importantes.

O resultado final das últimas eleições é sobejamente conhecido de todos nós: a coligação PSD/CDS-PP foi a força política mais votada: 36,86% (107 deputados), não tendo o PS obtido mais do que 32,21% (86 deputados). Como fora possível isto acontecer? Alguém, incluindo o senhor, pensara que tal resultado seria provável? É obvio que não.
Mais uma vez, como é normal refletir nestes momentos, o que é que correu mal? De quem é a responsabilidade? E foi envolvido nestes pensamentos que aguardei pelo seu discurso na noite do dia 4 de Outubro. Aguardava coerência e honestidade política. Tinha como certo que V.Ex.cia saberia interpretar a vontade dos eleitores e que assumiria politicamente a derrota. Ninguém no seu lugar, pensei eu, poderia seguir à frente do partido naquelas condições. Além de que, no passado, o senhor doutor tinha feito rolar a cabeça de Seguro por este ter obtido duas vitórias eleitorais, mas por “poucochinho”.

Mas não! Assisti, incrédulo, ao seu discurso, que realçava a “vitória da Esquerda”. O país, Dr. António Costa, enviara sinais muito claros do que pretendia: um entendimento entre os mais votados, PSD/CDS-PP e PS, um verdadeiro governo de salvação nacional, uma única força para conduzir o país na retoma. Por favor não finja que não entendeu.

É com admiração que tomo conhecimento de reuniões secretas que insiste em manter com o BE e com o PCP, tendentes a um acordo que permita à Esquerda constituir governo. É uma solução possível, mas bizarra, na qual não acredito, não por dogma ideológico, mas por conhecer os partidos envolvidos e saber que o que os une não é suficiente para qualquer projeto governativo. Os partidos têm identidade e a Esquerda, à esquerda do PS, rejeita a União Europeia, o euro, a NATO e regras básicas das economias de mercado. Ao contrário do PS.

Relembro as suas palavras, a 1 mês das eleições, no  Correio da Manhã: “quem ouvir o PCP ou o BE percebe que os dois partidos só têm um objetivo: combater o PS. São meros partidos de protesto, querem estar nas manifestações, mas não no Governo a resolver os problemas das pessoas”. Acresce que os resultados obtidos pelo BE e PCP somaram 18% votos. Isto quer dizer que 82% eleitores queriam mesmo essa Esquerda fora do parlamento.

Alerto-o ainda, senhor doutor, que esse caminho seria perigosíssimo para o PS, que acabaria por entregar o centro ao PSD, além das nefastas consequências ao nível económico e financeiro para o país (veja-se a recente reação primária dos mercados e da Bolsa a uma solução de governo como aquela que parece insistir em construir).

Todos já percebemos que o senhor doutor está obcecado com a necessidade de sobreviver, aos olhos do partido e dos portugueses. E que a sua ambição pessoal se sobrepõe aos interesses do próprio PS, da coletividade e da estabilidade do país. Sou pois e apenas mais um cidadão preocupado com o futuro. Que mais posso esperar de si, Dr. António Costa? É que na política não pode valer tudo!

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