Correio do Minho

Braga, terça-feira

Carta Aberta ao Senhor Primeiro Ministro

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2012-09-09 às 06h00

Carlos Pires

Ex.mo Senhor Primeiro Ministro,

Em primeiro lugar, quero deixar bem claro, eu faço parte daquele número de pessoas que tem a perfeita consciência do quanto o país, pelo menos na última década, se habituou a viver acima das suas possibilidades. E quando me refiro ao “país”, pretendo abranger todos os seus agentes, incluindo o poder central, mas também as pessoas e as famílias.

O recurso fácil ao financiamento foi alimentando todos os devaneios e autênticas loucuras - veja-se, do lado da administração pública, as obras faraónicas que foram promovidas, sem qualquer ponderação do rácio custo/proveito, desde estádios a autoestradas; veja-se ainda, do lado das famílias, a compra desenfreada de bens, desde casas com preços claramente hiperinflacionados, passando pela aquisição de veículos em número e gama desajustados às respetivas posses, férias no estrangeiro, etc, etc. O país viveu uma autêntica época de “Sodoma e Gomorra”. Mais cedo ou mais tarde teria que pagar a fatura. Monstruosa, de resto.

É pois na derradeira fase de pagar a fatura que o atual Governo é eleito. Pesada herança e missão, devo reconhecer, da qual, de resto, o Senhor e a sua equipa nunca deixaram de queixar-se. Compreensivelmente, diria. De todo o modo, eu sempre apreciei a frontalidade e o realismo do seu discurso, independentemente da dureza das medidas que no último ano foram sendo sucessivamente adotadas. E confiei. Aliás, há uma coisa de que a equipa governativa por si presidida não pode reclamar: da falta de compreensão e da serenidade com que os portugueses têm enfrentado o rápido e implacável empobrecimento a que foram condenados.

Esse estoicismo tem constituído um valiosíssimo “ativo”, utilizado certamente pelo Governo nos encontros com os nossos credores, com a Senhora Merkel ou mesmo com a Troika, mas que deve ser respeitado e preservado.

Ora, posto isto, é com alguma deceção e tristeza que tenho como certo que tudo vai mudar a partir de agora. O país ouviu-o atentamente na passada sexta-feira mas, desta vez, não “entranhou”. A sua mensagem, como já seria de esperar, não deixou de enfatizar o “blá-blá-blá”, a sempre terrifica situação que se vivia em 2011, o elogio da reputação de Portugal no exterior, fazendo o favor de recordar-nos que “não existem curas rápidas”, para, no essencial, anunciar mais e mais austeridade. Mais baixa de salários para todos os portugueses, quer para os que trabalham na função pública, quer para os que trabalham no setor privado, decorrente do aumento das contribuições para a segurança social e dos impostos.

Senhor Primeiro Ministro, parece que para si não há vida para além dos impostos. Das duas uma: ou o seu Governo não quer trabalhar ou não quer contrariar interesses instalados e, na dúvida, opta pela via mais fácil para fazer face à aparente e continuada derrocada das contas, o aumento da receita. Permita-me que o relembre de algo que o Senhor se fartou de falar antes de ser eleito: há setores que se mantêm intocáveis, como as fundações e as parcerias público-privadas. Não percebo a razão pela qual o seu Governo resiste a eliminar tais relevantes gorduras e despesas.

Todos sabemos que não reside aí “a salvação da pátria”, mas certamente permitiria aliviar a insuportável carga fiscal que incide sobre os portugueses. Corrijo, sobre os portugueses de parcos rendimentos. Uma vez que, como e bem referiu o Prof. Freitas do Amaral na semana que findou, também não se compreende como é que, nos atuais tempos, não é pedido aos verdadeiramente ricos, àqueles que ganham muitos milhares de euros (há quem aufira 15, 20, 50 e até 100.000 euros por mês!), uma comparticipação especial, uma vez que o sacrifício causado a esses sempre seria menor do que aquele que está a ser causado a quem já vive no limiar da pobreza….

O seu discurso, Senhor Primeiro Ministro, revela ainda, para além da aludida “amnésia”, uma profunda (e assustadora!) ignorância. Então o Senhor está convencido que porque desonera em cerca de seis pontos percentuais a Taxa Social Única das empresas, um tal alívio permitirá mais fácil contratação de parte do contingente de desempregados no país?

O Senhor acha que a esmagadora maioria das empresas (não exportadoras) vai produzir mais se, afinal, os potenciais compradores estão com os bolsos cada vez mais vazios? Diga-me, porque eu não percebo o que lhe vai na mente, como acha que os portugueses, a viverem com orçamentos cada vez mais à míngua, poderão contribuir para um aumento do consumo e um não aprofundar da recessão económica?

Hoje sinto mais do que nunca o peso da crise, uma crise que é, em primeiro lugar, a crise das expetativas e da esperança. E desta crise, Senhor Primeiro Ministro, considero-o também, a partir de agora, e lamentavelmente, responsável.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

25 Setembro 2018

Traição, dizem eles!

25 Setembro 2018

As receitas do IVA

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.