Correio do Minho

Braga, quinta-feira

'Castelos e cobras, piratas e bolos', por Miguel Andrade

O Estado da União

Conta o Leitor

2011-07-29 às 06h00

Escritor

Castelos e cobras, piratas e bolos. A noite é de sonhos agitados…
Castelos de pirata, cobras de bolo. A janela fechada insiste em manter a ilusão da noite, mas o sol chama já do lado de fora.
Piratas de cobra, castelos de bolo. É cedo, ainda, mas não lhe saem da cabeça os planos para essa tarde traçados.

Cobras no castelo e piratas no bolo. A ansiedade é criança mal comportada que os pés imitam ao saltar da cama.
A manhã foi ocupada a afiar um pau em forma de espada de pirata. Foi preciso uma verdadeira habilidade para executar tamanha obra de engenharia histórica. Até parecia verdadeira com aquele pedaço de couro a colorir o punho colado com trinta e sete voltas de fita-cola.

O pai é que não vai achar grande piada quando notar pela falta do rolo:
- Grande malandro gastaste a fita-cola toda! Anda que já vais ver. - Não se pode esperar que os adultos saibam dar valor às coisas verdadeiramente importantes.
As fitas de pano que no quintal da vizinha seguravam os feijões, vieram mesmo a jeito para colocar à cintura. Eram encarnadas e tudo.
- A Dona Carminda nem vai notar pela falta. - comenta o rapaz para consigo.
Talvez não. Mas com certeza reparará nos sete pés de cebolo que o nosso aventureiro calcou durante a diligência. E ela que é tão picuinhas:
- Ó Sr. Pai! O seu filho isto, o seu filho aquilo…

A vantagem é que o nosso destemido amigo não vai notar é a sova referente à fita-cola entre as lambadas alusivas ao quintal da vizinha.
-Já que vou levar e vou, mais vale gastar mais um bocadinho…

O encontro era depois do almoço:
- Ó filho! Olha a sopa! Não corras depois de comer…
Ele viu-a bem, mãe. Por isso é que corre tão depressa.
Corre pela estrada e pelos caminhos. Corre com o vento. Corre contra o vento, corre e é o vento. Abre as asas que é já um avião. Plana pelos caminhos de terra entre casas e logo recolhe as asas à vista do ponto de encontro.

Os outros do grupo já lá se encontram à espera no local combinado. Aproveitando para expor as valiosas espadas entre si e trocar impressões. São mais dois: O Nuno Mais Velho e o Carlos Do Meio. O mais novo já o conhecemos chamam-lhe João.

Percebendo agora que este grupo é um triângulo, porque vemos chegar um quarto rapaz?
É o Menino Zezinho. Para quem não o conhece, este é o único filho do presidente da junta e da filha do rico industrial da vila vizinha. Nascido José Francisco Carvalhais de Vasconcelos, ficou Zezinho de mimo e Menino de título. Mas para o conhecerem mais a fundo aqui deixo em aberto os pensamentos em discurso directo do João e amigos:

- Caixa d’óculos, cara de enjoado, queixinhas, menino da mamã, graxista da professora, etc…
Eles não lhe disseram isto, só pensaram. A verdadeira conversa entre eles foi a que se seguiu:
O menino Zezinho ao ataque: - Vou dizer ao caseiro que vocês querem ir brincar para o monte do Sr. Júlio.

O João em defesa frouxa mas em jeito de contra-ataque: - Vais dizer é uma figa! Morcão.
O Carlos Do Meio já com o azeite a ferver em pouco lume: - Acerto-te duas lambadas que só…
O Menino Zezinho a manter a dele: - Vou dizer, vou dizer, vou dizer!
O Nuno Mais Velho, com a calma do costume: - Não digas. Nós deixamos-te participar.
O Menino Zezinho aos saltos de alegria e os outros a suicidarem-se ficticiamente com as espadas em mopdo de protesto.
O Menino Zezinho com ela fisgada: - E vamos jogar a quê?
- Aos piratas.

Maldita hora em que o incluíram na aventura. Para ele não bufar há que deixá-lo jogar. Mas o desgraçado tinha medo de piratas e queria jogar aos cowboys.
Depois de muita discussão, a história consistiu no Xerife-herói-cowboy (tinha de ter estes três requisitos, ou o Zezinho não jogava) que lutava contra os índios. Mas como ninguém estava para aturar o Menino Cara de Enjoado, ficou logo decidido a 3 que no início do jogo o Xerife-herói-cowboy seria capturado pelos índios.

Apanharam-no a jeito. Ele lutou o que pôde. Mas como podia pouco deixou-se ficar. Foi preso a uma árvore pelos Peles Vermelhas enquanto gritava frases corajosas e chamava o seu fiel cavalo branco.
Uma coisa leva a outra e já os índios tinham o seu esconderijo secreto, onde construíram um castelo de piratas (não havia água para ser um navio), fugiram de cobras que entretanto apareceram e lutaram aos piratas. Quando estavam cansados comeram umas fatias de bolo de domingo que o Carlos Do Meio trouxera para o lanche.

A outra coisa leva a uma outra e já os piratas navegavam em direcção à aldeia para o encontro marcado com o Sandokan (este é só o maior pirata de todos os tempos) que não tardava a ir para o ar na televisão da Dona Mariquinhas da mercearia.

Após de jantar, estava o João no quintal com o seu cão.
- João anda cá. - A mãe a chamar.
- Que foi? - Pergunta ele ao chegar. Ao mesmo tempo apercebe-se da presença da mãe do Menino Zezinho.
- Estiveste com o Meninho Zezinho, hoje à tarde? - Pergunta ela em tom preocupado.
Aquele coçar de cabeça e o olhar o chão pelo lado esquerdo como quem quer lembrar algo denunciou a dúvida do rapaz. A boca e olhos abertos do ar de incredulidade súbito que lhe estancou na face assustou as duas mulheres.

As lanternas iluminaram o vulto. Baba e ranho compunham a cara do rapaz com as calças molhadas, entre as pernas, a ajudar a enquadrar a figura. Não era um bonito filme de se ver: O corpo inanimado de um miúdo que preso a uma árvore havia desmaiado com medo no escuro.

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