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Cativar

Os amigos de Mariana (1ª parte)

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Cativar

Voz aos Escritores

2021-12-10 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

De todas as palavras do meu dicionário mental, a palavra "cativar" ocupa um lugar proeminente. Aprendi-a em algumas circunstâncias, todas relacionadas com a leitura, o que me prova aquilo que, felizmente, já sei: sem a leitura de bons textos, sejam pensamentos profundos de filósofos extraordinários, sejam belos poemas, sejam ainda romances ou novelas cheias de ensinamentos e beleza, a nossa formação intelectual, moral e estética, nunca atingirá grandes e profícuos patamares. Lembro-me de estar apaixonado pela lírica de Luís de Camões, poesia que considero única na literatura portuguesa. E de ler, um dia, as endechas a Bárbara escrava, poema que ainda hoje sei de cor. Nele exprime o poeta o seu amor à cativa (porque literalmente escrava) que o tem cativo de amor: "Eu nunca vi rosa, em suaves molhos, que para meus olhos fosse mais formosa". Olhos, flores e amor, uma trindade inseparável na poemática portuguesa. Quem não se lembra dos olhos verdes de Joaninha e dos olhos negros da paixão de Almeida Garrett? A rosa metafórica do nosso grande romântico tinha todas as cores, que ele deixava-se cativar por todas elas. Exceto talvez o azul, que ele remetia para o âmbito da traição e lá saberia porquê.

Tento compreender de que forma os nossos apaixonados vates geriam o conteúdo dos silêncios com o objetivo da conquista. Cativar pelo silêncio, com os olhos e o coração, parece ser o melhor caminho para a sublimação amorosa. Outros o farão com diferentes argumentos, mais de índole material, mas em que parte da matéria exterior ao corpo encontraremos o sentimento mais profundo que nos é permitido sentir e viver? Pessoa, epítome da complexidade e da contradição, tem razão quando releva o silêncio como a catedral dos sentimentos. E se, mais profundamente ainda, o silêncio for daquela que, "anonimato vivo", cativa o próprio corpo, melhor se compreenderá a complexidade referida. A beleza interior supera, no silêncio, toda a materialidade. Esta plurissignificação do verbo "cativar", ora de "prisão física ou moral", ora de "sedução e encantamento" aprendi-a, mais tarde, quando li "O Principezinho", de Saint-Exupéry, naquela inesquecível sugestão de que, "se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro, e serás para mim única no mundo". Tal aprendizagem foi profícua, pois moldou definitivamente o meu comportamento, que se moveu doravante pela zona do fascínio e do deslumbramento, do encantamento e da sedução. Cativar os outros, seduzi-los para a prática do bem e da bondade, para o cumprimento de objetivos aprioristicamente inexequíveis, passou a ser um lema de todas as minhas ações. Não sei se tenho criado a procurada empatia com todos aqueles que me rodeiam, dado que o processo não é fácil e depende de fatores que muitas vezes me ultrapassam, mas a ideia é esta e mostra-se sempre presente. O envolvimento e o empolgamento são a consequência natural deste comportamento, suscetível de nos transportar ao impossível.
Que todos cativem e se deixem cativar é o meu solene desejo.

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