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Causa e efeito…

O símbolo internacional (quase universal) do amor

Causa e efeito…

Escreve quem sabe

2022-01-25 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Vivemos (mais) um momento eleitoral, onde celebramos a democracia enquanto expressão da nossa liberdade e projectamos o nosso futuro, abrindo a possibilidade da apresentação, reflexão e debate de diferentes abordagens ao que somos, queremos e conseguimos ser.
Neste exercício pleno da nossa liberdade, projectado e organizado na formação de plataformas governativas e electivas em partidos, estes mesmos apresentam as suas ideias e intenções, análises e críticas, expõem as suas virtudes e as incapacidades dos outros, numa corrida intensa de argumentação que, julga-se, sincera entre todos e que visa, no fim, servir todos nós.

Não se sabe se característica intrínseca ao país, se inato à natureza do momento e acto electivo, verifica-se que este conjunto de ideias e intenções – materializadas no dito, e no caso, programa eleitoal e publicitadas e explicadas na dita campanha eleitoral – revelam, regra geral, um tratamento maniqueísta e dicotómico de problema e solução, numa rápida transformação da identificação do problema, não raras as vezes, por percepção, em solução que tudo pode e resolve, tudo suporta e se alimenta de meios e recursos tidos como disponíveis e presentes. Dir-se-á que é a convicção do modelo “problema – solução”, tudo se delimitando quase como ilhas que não se interligam e dependem umas das outras. E como tudo é (também) uma questão de perspectiva, para uns, tal é uma atitude irrealista, para outros um sinal de esperança.
Seja como for, uma rápida leitura dos jornais dos últimos dias transporta-nos para três notícias que chamam a atenção e que importa valorizar pelo seu significado na vida de todos nós e pelo que traduzem do efeito das políticas públicas assumidas, implementadas e concretizadas.

“Preço da habitação e valor das rendas volta a subir”, “aumento do número de carros em circulação”, “venda de veículos eléctricos atinge novo máximo” podem ser três sintéticos resumos das notícias realçadas e que visibilizam todo o efeito instalado no território, pese todas as medidas e todo o discurso sobre o espaço público e a pedonalidade, a necessidade de reduzir a presença do automóvel e incrementar outros meios de transporte “mais amigos do ambiente” como a bicicleta…

Na verdade, e no presente, nunca se verificou um investimento tão acentuado em ciclovias e espaços partilhados de circulação do peão e da bicicleta, nunca se discursou tanto sobre as vantagens do transporte colectivo, da bicicleta e outros em detrimento do carro. E nunca se valorizou tanto a electricidade como fonte de energia automóvel em substituição dos ditos combustíveis fósseis.
Assim, com natural expectativa e reforçada convicção, a actualidade deveria ser brindada com menos automóveis na rua e mais bicicletas em circulação segura e confortável, com a oferta de mais espaço público disponível para o peão, para a comunidade e para a prática da socialização, com a redução do consumo dos combustíveis fósseis… deveria, porque, na realidade, e como as notícias demonstram, os resultados indiciam uma direcção contrária e divergente, colocando em causa e dúvida a bondade das políticas e concretizações assumidas. Ou seja, afigura-se legítimo perguntar o porquê destes resultados quando o investimento é grande e forte. E quando, consensualmente, toca e abrange os temas certos e necessários.

Sem colidir com tal constatação, é convicção de que tal revela a fatalidade deste tratamento dicotómico do tema como “problema – solução” e não como a abrangente “causa – efeito”, isto é, identificamos o problema tal como ele é, escrevemos e construimos a pergunta, à qual temos e queremos responder, sem analisar, conhecer e nomear as causas que levam a tal. E, depois, vamos em busca do resultado visível e palpável, da “obra”, de tudo aquilo que “factualmente” demonstre a bondade da resposta ao problema, e não perseguimos com os efeitos gerados (ou que deveriam ser gerados), com as condições criadas para as mudanças e ajustamentos necessários. Limitamo-nos à análise epidérmica e ao imediato, esquecendo e omitindo que tudo tem uma causa e um efeito. E que a primeira (causa) é a verdadeira razão para acon- tecer. E o segundo (efeito) é o que verdadeiramente perdurará no tempo.

Tal não deixa de ser crua e visivelmente demonstrado nestas notícias: por mais ciclovias que se construam na resposta à necessidade da criação de segurança e conforto cicláveis, a verdadeira causa da falta de ciclistas é o nosso modo de vida, é a nossa cultura e aculturação; por mais circulação eléctrica que se verifique, a causa maior da falta de espaço público está no excesso do automóvel, da quantidade que circula desnecessariamente no espaço urbano; por muita legislação que se produza e se aprimorize, não há mercado que resista e responda se não for regulado e motivado, no extremo, intervencionado e acompanhado. Não há problema que se revele sem entender as suas causas. Não há solução que perdure sem entendimento dos seus efeitos.
Apesar de tal complexificar a mensagem e tornar mais exigente a comunicação, tal não deveria ser desvalorizado. Pelo contrário! Para bem de todos! Em abono da verdade que a todos interessa!

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