Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Cavaco Silva, o Contorcionista

O que nos distingue

Ideias Políticas

2015-02-10 às 06h00

Pedro Sousa

Não tenho nenhuma simpatia pessoal, política e institucional pelo Dr. Cavaco Silva. Sinto, aliás, alguma repulsa pela falta de capacidade política para intervir quando deveria e deve intervir e, pelo contrário, se acomete aos silêncios “comatosos” a que nos últimos anos nos habituou e, sobretudo, quando revela profunda falta de sentido institucional, tomando medidas e decisões que seriam entendíveis e razoáveis se ele fosse, apenas, o “guardião” dos interesses do PSD e do Governo de Passos Coelho e não, como está obrigado por inerência das funções que desempenha, o “guardião” dos interesses de todos os Portugueses.

Não podia começar sem antes fazer esta declaração de interesses mas, podendo ou não simpatizar-se com a minha posição, apresento, em seguida, um conjunto de factos que suportam a minha opinião.
O discurso de Cavaco Silva nas Comemorações do 25 de Abril, em 2013, abriu as hostilidades na defesa indefectível do Governo de Passos e Portas, isentando-o de culpas numa série de questões (desemprego, fuga de cérebros, ataque brutal à classe média, desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, três anos consecutivos de recessão económica, etc.) que eram e são, em grande medida, da sua responsabilidade.

Meses mais tarde, após a “irrevogável” demissão de Paulo Portas (teve tanto de irrevogável como de inenarrável) vimos Cavaco Silva tentar intermediar uma plataforma de consenso político alargado (tentativa condenada, à partida, ao insucesso) que incluísse o PSD de Passos Coelho e o Partido Socialista, à altura liderado por António José Seguro, que permitisse ultrapassar aquele momento periclitante da Coligação PSD-CDS, acenando com a cenoura/compromisso de antecipar, em dezoito meses, as Eleições Legislativas previstas para Outubro de 2015.

Relembro este episódio, apenas, para dizer que recentemente Cavaco Silva rejeitou antecipar as eleições de Outubro próximo em três, quatro, cinco meses, a fim de permitir que, o Governo que venha a ser eleito, pudesse preparar, apresentar e governar com o seu próprio Orçamento de Estado, de acordo com o programa de Governo que os Portugueses venham a sufragar. Pois bem, o mesmo Cavaco Silva que estava disposto a antecipar as eleições em dezoito meses rejeitou, agora, essa intenção, escudando-se em argumentos de suposta inconstitucionalidade, afirmando que a Constituição, supostamente, define Outubro como data das Eleições Legislativas.

Sucede que esta justificação é fundada numa descarada mentira, uma vez que em nenhum dos 296 artigos da Constituição da República Portuguesa está plasmada a obrigatoriedade das Eleições Legislativas serem em Outubro.

A fechar, um dos mais graves casos financeiros, económicos e políticos da Democracia Portuguesa.
O caso BES. Um caso com contornos extremamente nebulosos, difusos, com legítimas suspeitas de práticas criminosas e que resultou em perdas financeiras muito significativas para milhões de pequenos aforradores (não sendo nunca demais lembrar que, muitos deles, perderam as suas poupanças de uma vida inteira), constituirá, “ad eternum”, a mancha maior da vida política de Cavaco Silva, de Passos Coelho e seus pares.

Afirmei, desde a primeira hora, que o caso BES deixava a nu graves problemas de supervisão e que, aparentemente, o Sr. Governador do Banco de Portugal se deixou enlear na história contada, certamente em tom meigo e delicodoce, pelo Dr. Ricardo Salgado, demitindo-se do seu papel de perguntar, questionar, problematizar, de supervisionar a sério, num exercício verdadeiramente escrutinador, “chatinho” e exigente.

Mais grave, o facto de, há poucos dias, Ricardo Salgado ter afirmado publicamente que Cavaco Silva teve, através de reuniões de trabalho pedidas especialmente para o efeito, não só conhecimento dos problemas do GES mas, também, do próprio BES, tendo, aliás, pedido a sua ajuda institucional para os resolver.

Em resposta a estas afirmações de Ricardo Salgado, Cavaco Silva disse que “… nunca fez uma declaração sobre o BES”, quando, certamente, muitos se recordarão, na medida em que é público, está publicado e pode, facilmente, mediante uma qualquer pesquisa no 'Google', ser confirmado, o Sr. Presidente da República, em Julho de 2014, de visita à Coreia do Sul, disse, “ipsis verbis”, de forma taxativa e segura, que os “Portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo”.

É incrível a ginástica, a elasticidade mental, linguística e de carácter do, aparentemente, rígido Cavaco Silva. Pena o Dr. Cavaco Silva não ter descoberto este talento em tenra idade. Portugal não teria perdido um grande político e teria, certamente, ganho um contorcionista digno do Circo du Soleil e das mais eminentes proezas olímpicas.

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