Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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CÓDEX XLV

A cor é Rosa!

Conta o Leitor

2021-08-28 às 06h00

Escritor Escritor

Carlos Azevedo

Estava sentado à beira rio, numa vila onde moro. Lia um romance que tinha adquirido num alfarrabista da cidade, cujo o tema era baseado numa conspiração no século XVII, entre Portugal e Espanha por uma organização secreta, para a ramificação Ibérica, o “Códex XLV”, quando dei por mim a divagar nos meus pensamentos.
Sempre imaginei como seria escrever um livro, e bem lá no fundo do meu ser gostaria de escrever um, mas a coragem e o tema, foram sempre um entrave para o fazer, além disso era preciso ter uma boa história, que fosse credível e fantástica ao mesmo tempo.
A tarde ia a meio. À minha volta crianças e pais brincavam, com aquela felicidade estampada no rosto, de quem conseguiu arranjar um pouco de tempo para passar a tarde em família, já que, cada vez era mais difícil estarem juntos, devido à azáfama do dia-a-dia.
Pus-me a pensar o que poderia utilizar, como tema para um possível livro. Como não conseguia chegar a uma conclusão (tendo em vista que estas coisas não aparecem assim de repente), continuei a ler o que tinha em mãos.
O tempo foi passando, as pessoas que estavam a desfrutar daquela tarde primaveril, começaram aos poucos a irem embora, e comecei a ter a sensação de que o espaço que me envolvia, aumentava ao ponto de me sentir pequeno e só, num imenso deserto. Essa sensação foi tão forte, que olhei em volta para tentar perceber onde estava.
Constatei afinal que continuava no mesmo local, naquela tarde de sábado em pleno janeiro, sentado num banco na margem do rio, onde as águas corriam livremente.
A tarde ia já alta, as pessoas tinham ido todas embora, como fiquei sozinho aproveitei para continuar a minha leitura e adiantar mais um pouco, porque ainda sentia o calor do sol, apesar de ele estar mais baixo no horizonte. Uma pequena brisa começou a sentir-se, o que não era de todo desagradável.
Essa mesma brisa começou a agitar as águas do rio, criando um movimento ondulatório, e efeitos nas águas quase hipnóticos, que em conjunto com as imagens refletidas das margens, tornava um efeito bastante agradável e bonito parecendo uma pintura a óleo.
Todo esse efeito criou em mim um estar tão agradável, relaxante, que resolvi continuar a minha leitura até que o sol desapareça no horizonte e fosse impossível continuar a mesma.
Passado bastante tempo e enquanto lia, senti que qualquer coisa se passava à minha volta, tirei os olhos do livro e reparei espantado que o espaço em redor estava a transformar-se, não completamente mas sim subtilmente, já que a ponte do meu lado direito (do local onde me encontro) continua no mesmo lugar, mas o resto das construções tais como o edifício do clube náutico não existia, o bar também, tudo o que era recente tinha desaparecido totalmente dando lugar a campos de cultivo, as próprias águas eram mais cristalinas, e até dava para ver os peixes.
Esfreguei os olhos espantados e um pouco aterrorizado, não acreditando naquilo que estava a ver, o local era o mesmo, mas algo mudara, como se tivesse recuado no tempo.
Ainda não me tinha refeito do meu espanto, quando ouvi umas risadas ali perto.
Como o terreno tinha mudado, já que a distância entre margens, eram um pouco maiores e o local onde eu estava sentado já não era o banco, mas sim umas rochas que me tiravam a visibilidade do lado esquerdo, levantei-me e vi que a cerca de dois, três metros, estavam três mulheres que lavavam a roupa à beira da água, numas pedras que serviam de tanque, e dois miúdos que brincavam ali ao pé.
Uma coisa que me chamou atenção de imediato e confirmaram as minhas suspeitas (de que tinha recuado no tempo), foram os trajes que as mulheres e crianças usavam.
Só podia ser brincadeira, ou então eu estava a sonhar, era isso, só podia ser um sonho talvez consequência da leitura, devo ter adormecido, e agora, estava a viver um sonho de época medieval.
Provavelmente caí no sono, mas achei estranho, por várias razões que passo a explicar, que me lembre nunca adormeci a ler seja o que for, e dormir sentado está fora de questão, nem que seja no sofá, que fará naquele banco de pedra.
Tinha que haver uma explicação lógica, para o que me estava a acontecer, mais uma vez olhei em volta para tentar perceber alguma coisa, mas nada que me pudesse elucidar em relação ao que estava a passar.
O livro continuava na minha mão, mas as minhas roupas eram diferentes, pareciam mais uns trapos do que roupas, estava vestido com roupas do campo, de má confeção e um pouco sujas.
Espera aí, o livro já não era o mesmo, aliás não era um livro, mas sim um maço de folhas um pouco gastas e não tinha nada a ver com o que estava a ler. Estas folhas tinham textos escritos com uma caligrafia bem desenhada.
O meu estado de espírito começou a alterar-se devido ao que me estava a acontecer. Como precisava esclarecer tudo isto, dirigi-me junto das mulheres que lavavam no rio. As crianças ao verem-me pararam de brincar e curiosas aproximaram-se de mim, as mulheres olhavam-me com cara de espanto, deixando de lavar a roupa.
Ao chegar perto delas perguntei:
- Onde estou? Que lugar é este?
Espantado verifiquei que não saía qualquer som dos meus lábios
Elas encolheram os ombros e começaram a gesticular na minha direção, como se eu fosse um espírito de mau agoiro.
Mais uma vez perguntei:
-Sabem-me dizer que lugar é este?
-Em que ano estou?
Outra vez não saía qualquer som da minha boca.
Uma vez mais não obtive resposta a nenhuma das minhas questões, como não sabia o que fazer, tentei ir pelo caminho até à ponte, onde se via algumas habitações.
As mulheres começaram a berrar qualquer coisa, mas como eu também não as conseguia ouvir, continuei a caminhar em direção ao casario, que se via para os lados da ponte, mas quanto mais andava, mais esse casario se afastava. Afastava-se de tal maneira rápido que comecei a ficar tonto, e desmaiei.
Quando abri os olhos, era quase noite e a brisa tinha aumentado, tornando o ar mais frio. Olhei em volta e vi que estava no banco, mas não sentado e sim deitado, com o livro aberto no chão, e não se via vivalma.
Estava completamente sozinho.
-O que é que se tinha passado? Perguntei a mim próprio.
-Que raio é que se passou? Disse eu em voz alta.
-Será que adormeci? Questionei-me mais uma vez.
- Algo de extraordinário se tinha passado. Pensei.
A noite tinha caído, o frio a apertar, resolvi ir para casa, mas não sem antes olhar para o local onde estavam as mulheres a lavar a roupa, como é obvio as pedras onde lavavam já não existiam, e até mesmo as rochas onde eu tinha estado momentos antes, tinham sido substituídas pelo banco agora existente. Olhei em volta a confirmar se realmente estava de volta, e assim, lá estava o clube náutico, e todas as infraestruturas que envolviam toda a zona.
-Bem, passou-se realmente qualquer coisa de estranho aqui, será que adormeci?
-Se assim foi, como foi possível isso acontecer? Perguntei a mim mesmo.
Seria uma pergunta que ficaria sem resposta, pelo menos por agora.
Preparei-me para vir embora, pensando no que se tinha passado naquela estranha tarde de sábado.
O resto do dia passou sem mais novidades, com a rotina de um sábado normal à exceção do que aconteceu nessa tarde.
Depois do jantar de família, fui para a sala e sentei-me no sofá, para usufruir de umas horas de lazer, vendo um filme e tomando um bom café para relaxar e tirar o maior partido do resto da noite.
Enquanto o filme corria, veio-me à memória outra vez, o acontecimento estranho que tinha acontecido nessa tarde, e uma sensação esquisita apoderou-se de mim.
Havia qualquer coisa naquela visão (ainda não sei se foi sonho ou outra coisa qualquer extraordinária), que eu não conseguia perceber o que era. Algo estranho ao ponto de me fazer ter um arrepio nas costas.
Saí destes pensamentos, arrepiantes e tentando esquecer o que se passou, concentrei-me no filme que estava a passar, e tentei não pensar mais no assunto.
Naquele momento falha a luz.
-Bolas…

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