Correio do Minho

Braga, sábado

CEC 2027 por um canudo?

Os Novos Estatutos do Escutismo Católico Português

Ideias

2018-06-18 às 06h00

Jorge Cruz

“A causa da derrota, não está nos obstáculos, ou no rigor das circunstâncias, está na falta de determinação e desistência da própria pessoa”.
(Buda)

O presidente da Câmara Municipal de Braga garantiu há dias que o município vai apresentar a candidatura a Capital Europeia da Cultura (CEC) em 2027, confirmando assim a in- tenção por si manifestada no ano passado de suceder a Lisboa, Porto e Guimarães, anteriores cidades portuguesas a ostentar tal título.
O anúncio de Ricardo Rio nada traz de novo, a não ser a confirmação de que uma matéria tão relevante mas complexa, como será a candidatura a CEC, continua a ser encarada de forma irresponsavelmente leviana, sem a abertura e o diálogo que uma opção deste jaez mais que justifica. A comprová-lo, entre outros, o facto de o autarca ter aproveitado a inauguração da nova unidade hoteleira instalada no antigo Hospital de S. Marcos para fazer o anúncio.

Hesito em classificar o facto, indesmentível, de o presidente da Câmara de Braga ter optado, quer na comunicação inicial quer agora, pela diminuta valorização da pretensa candidatura.
Em Abril do ano passado, Ricardo Rio utilizou a inauguração das instalações do Arquivo Distrital de Braga e do Centro Interpretativo da Universidade do Minho
como veículo para o anúncio da intenção, a qual, segundo afirmou, corporiza uma "visão a 10 anos" do município. A confirmação, agora, de que a candidatura será mesmo para avançar, ocorreu de novo no quadro de outra inauguração.

O que levará o autarca bracarense a desvalorizar ou, pelo menos, a secundarizar a candidatura da cidade de Braga a Capital Europeia da Cultura, quando publicamente começou por falar em "ambição e vontade de vencer"? Simples falta de sensibilidade política para questões culturais ou manifestação subliminar de descrédito quanto ao sucesso da candidatura?
Creio que estas são interrogações absolutamente legítimas embora seja minha convicção de que a existir um mínimo de sensibilidade política para a área da cultura, Rio criaria um acto exclusivamente dedicado ao anúncio. Fá-lo-ia num momento e num local claramente apropria- dos a tão marcante comunicação, enfim, criaria um evento específico com a força mediática adequada a uma candidatura que se pretende forte e vencedora.

Ao avançar da forma desastrada como o fez desperdiçou uma oportunidade ímpar para marcar posição, quer relativamente aos agentes culturais e aos bracarenses em geral, quer às restantes cidades portuguesas também candidatas a CEC 2027.
Não ignoro que a escolha, por um comité internacional de especialistas (sem qualquer intervenção do governo nacional, convém dizer desde já), ocorrerá até 2023, mas também sei que até lá as cidades candidatas têm um longo caminho a percorrer. Será um processo moroso de selecção, prolongando-se por seis anos, e assaz complexo, já que as regras são deveras exigentes, o que implica um trabalho apurado e altamente qualificado.

Ora esse labor já está a ser desenvolvido no terreno por algumas das candidaturas, as quais nomearam equipas específicas para tal missão. Serão os casos, entre outras, de Aveiro, que designou Carlos Martins, com experiência na CEC 2012 em Guimarães; de Leiria, que escolheu João Serra, que liderou a Fundação Cidade de Guimarães; da Guarda, que elegeu Amaral Lopes, antigo secretário de Estado da Cultura; e de Coimbra, que designou o mágico Luís de Matos.
Há, entretanto, ecos de acções já desenvolvidas: Évora, por exemplo, apresentou o projecto de candidatura no Salão Inter- nacional do Património Cultural, em Paris, enquanto Aveiro está a preparar um Plano Estratégico de Cultura.

Nota-se, portanto, que uma boa parte dos municípios que aceitaram o desafio da candidatura à CEC 2027, e são 12 no total, estão a trabalhar no terreno, procurando envolver nas candidaturas as diferentes organizações e agentes culturais, num processo aberto e dialogante com vista ao estabelecimento das imprescindíveis parcerias que ajudem a alcançar a almejada vitória. Ao que parece, a cidade de Braga está a perder terreno, está a ficar para trás, num processo extraordinariamente difícil mas imparável, que se concluirá em 2013 com o anúncio da cidade portuguesa que em 2027 ostentará o título de Capital Europeia da Cultura, a par com uma congénere da Letónia.

Em Braga, e até ao momento, não se conhece qualquer grupo de missão para a candidatura bracarense e, muito menos, o esboço de uma equipa de projecto. Aliás, as próprias forças minoritárias no executivo municipal nunca foram consultadas ou formalmente informadas sobre a candidatura que Ricardo Rio apregoa, pese embora estar em causa um plano que extravasa largamente o horizonte temporal da gestão da actual coligação de direita.
O que está a acontecer é demasiado grave para que possamos calar a indignação. Para a candidatura ter êxito haveria que convocar o maior número de parceiros até porque as experiências anteriores demonstram que as CEC têm constituído óptimas oportunidades para “regenerar cidades, aumentar o seu perfil internacional, aumentar a auto-imagem dos habitantes, reanimar a cultura urbana e desenvolver o turismo”. Para só falar das duas mais próximas, geográfica e temporal- mente, é ver as marcas deixadas pelo Por- to 2001 (a Casa da Música e a regeneração urbana do espaço público) e por Guimarães 2012 (a Plataforma das Artes e da Criatividade e idêntica reabilitação urbana). Será que Braga vai perder a cor- rida para a organização da próxima Capital da Cultura em Portugal desperdiçando assim mais esta janela de oportunidades?

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