Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Certames, encontros, eventos, festivais e outras iniciativas…

Macron - Micron

Ideias

2016-11-16 às 06h00

José Hermínio Machado

O professor Jorge Lage voltou a lançar, em edição de autor, um livro dedicado à castanha e ao castanheiro, agora com o título de Maria Castanha, Outras Memórias, alargando as rubricas temáticas anteriores em termos de informação, agora proveniente de mais leituras, mais entrevistas e recolhas, mais regiões do país, em suma, mais aprofundamento de conhecimentos.

O que desse livro quero referir para este artigo é o capítulo dedicado a festas e feiras da Castanha em Portugal, não para o citar, mas para o usar como demonstração do alargamento de manifestações culturais, empresariais, gastronómicas, conviviais e festivas que os frutos da terra estão a determinar por essas autarquias fora, e ainda bem. A castanha serve de exemplo, mas podia ser a cereja, o kiwi, a pêra, a uva, o melão, a laranja, a maçã, como podia ser o cogumelo, como podia ser a noz, a amêndoa, como podiam ser outros produtos, o mel, o chocolate, como podiam ser outros saberes e sabores, o capão, a vitela, o cabrito, o javali, para já não falar dos produtos do mar.

As autarquias foram às tradições e alargaram o escopo de celebração. Se fizermos, como já fazemos, o mesmo às ideias e às produções tecnológicas, termos eventos dedicados a este àquele tipo de música, a esta e àquela sedimentação civilizacional, a esta e àquela ideia criativa. Passaremos então o tempo em certames, eventos, encontros, dias e semanas disto e daquilo. A variação de conteúdos temáticos pode dar origem a todos os tipos de eventos e estes são sempre organizados da mesma maneira: prevê-se a praça da alimentação, prevê-se o palco, prevê-se o programa de intervenções, de provas, de exibições, de artistas e de personalidades, chama-se a comunicação social, pespega-se com tudo e mais alguma coisa nas redes sociais e o mundo corre.

Há um turismo à volta disto?
Tanto melhor.
Há empresas especializadas neste tipo de iniciativas?
Tanto melhor.
Há mais desenvolvimento comercial?
Ainda bem.

Haverá também dimensões menos positivas em toda esta parafernália de eventos e celebrações, encontros e festivais, mas acima de tudo elas precisam de ser tomadas como auxiliares positivos do nosso desenvolvimento.
Em todos os domínios, desde o cultural ao religioso, desde o comercial ao lúdico, encontramos este modelo: tomar uma ideia, um fruto, um produto, um caso, uma época, uma corrente, um utensílio, uma técnica, e promove-la a elemento catalisador de iniciativa e empenho sociais.

No domínio do real ou no domínio virtual, este chão dá frutos e é susceptível de variações formais, apelativas, para que as pessoas se sintam abrangidas e tenham mais capacidades de opção. Não faltam os dissabores e as críticas, mas todos precisamos de momentos de simulacro de nossas vivências, digo simulacro não só no sentido fantasioso de catarse libertária, mas também no sentido construtivo de performance ou desempenho, duas dimensões que nos motivam, nos incentivam, nos dão visibilidade.

Os governos fazem, as igrejas fazem, os partidos fazem, as associações fazem, as autarquias fazem, as escolas fazem. Há muito que a gente se apropriou deste processo metonímico de pensar o todo a partir de uma fracção. É esta a capacidade inesgotável das tradições.

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