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Ceuta - múltiplas questões em análise e cada vez menos foco sobre os migrantes

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Ceuta - múltiplas questões em análise e cada vez menos foco sobre os migrantes

Ideias

2021-05-29 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

O implacável rodopio do mundo mediático depressa centrifuga e expulsa da nossa órbita de atenção todo e qualquer acontecimento. A recente chegada a Ceuta de 10 mil migrantes, não terá por isso um destino diferente neste quotidiano de consumo e esquecimento de imagens.
Entre as análises ao triângulo político que liga Marrocos à luta pela independência do Saara Ocidental, e à UE, por via da pressão diretamente exercida sobre Espanha, verifica-se que ao cabo de poucos dias, o foco está cada vez menos sobre os migrantes. Não que as questões sobre o dito triângulo politico não sejam importantes. Como aliás também o são as questões subjacentes às manifestações populares, e que nos remetem para o problema da identidade nacional em Espanha, o sentimento de injustiça identitária de parte da população que habita a cidade autónoma de Ceuta mas cujas raízes familiares são marroquinas, e a exploração que a extrema-direita espanhola (como qualquer outra extrema-direita, diga-se) sempre faz das tensões sociais para expandir o seu ideário xenófobo e ultranacionalista, reduzindo tudo a uma falsa e venenosa bipolaridade entre um ‘Nós’ e um ‘Eles’.
Contudo, importaria que não deixássemos de dedicar atenção aos próprios migrantes e refugiados! Falo aqui dos migrantes e refugiados subsaarianos, os da África Negra, os que nunca ninguém quer, a começar pelas próprias autoridades marroquinas.

A questão dos jovens e crianças marroquinos é importante, por certo, mas é ainda assim uma outra questão a merecer outro enquadramento, até porque, já se percebeu, na sua larga maioria não são nem migrantes nem refugiados, mas simplesmente menores instrumentalizados, levados ao engano para ajudar ao efeito de pressão que Marrocos pretendia exercer sobre Espanha por esta ter acolhido, por razões de saúde, Brahim Ghali, líder da Frente Polisário, o movimento de libertação do Saara Ocidental.
Ceuta é apenas o caso mais recente do que chamo de crescente normalização da utilização de fluxos migratórios como forma de pressão política. Marrocos serviu-se de modo muito claro da incapacidade da União Europeia em desenvolver uma resposta conjunta às crises migratórias.

Aliás, Marrocos integra o conjunto de Estados que a própria UE tem apoiado para a ajudar no controlo dos fluxos migratórios, ou seja, na externalização das suas responsabilidades migratórias. Ora, é bom não esquecer que a cintura de segurança em redor da EU se tem feito a expensas de acordos bilaterais com países que na sua larga maioria têm quadros muito preocupantes em matéria de Direitos Humanos.
No futuro, poderemos ter de enfrentar mais casos como o de Ceuta. O que por certo ocorrerá, sobretudo se a Europa não criar uma política comum para as migrações e, muito em particular, se não integrar na sua gestão migratória, instrumentos que respondam à urgente necessidade de legalização das migrações menos qualificadas. Repare-se que o problema nunca se coloca quando se fala na chegada de migrantes altamente qualificados, de cientistas e investigadores, de empresários e investidores.

O problema sempre se coloca com os que são pobres. Para eles não há cartão azul, não há simplificação administrativa dos processos de legalização e residência. Para eles, há apenas o limbo, a incerteza sobre a sua condição legal e, desde logo, quanto ao seu tipo de condição: se migrante, se refugiado. E não se pense que se trata de uma dificuldade metodológica de mera natureza académica. É antes uma dificuldade muito prática, sentida por quem está no terreno a avaliar as narrativas individuais, pois claramente há na condição de cada uma destas pessoas vulneráveis que buscam a Europa, características que as apresentam quer como potenciais migrantes económicos, quer como potenciais refugiados. Mas há algo na sua condição que nunca as abandonará: são pessoas e cada uma é em si mesma toda a Humanidade.

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