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Portugal de pernas para o ar!

Ideias

2015-01-16 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Como explicar esta matança em Paris? Para uma certa direita, os atentados de Paris resultam da frouxidão das democracias ocidentais que permitem que no seu seio se desenvolvam núcleos contestatários opostos aos valores ocidentais. Para a extrema- esquerda são o resultado da crise e da austeridade que atirou para a marginalidade grupos cada vez maior número de jovens que, ora se integram em movimentos jidhaistas, ora aderem ao ideário da extrema- direita.
São duas posições extremas que têm a sua dose de razão. É certo que as democracias ocidentais albergam no seu seio comunidades moldadas por valores que não são os do Ocidente e que os jovens da periferia, cidadãos de segunda, vivendo da segurança social e de empregos precários, são tentados a ver na Al- Qaeda e no Estado Islâmico um horizonte e um futuro.
Mas os atentados de Paris podem ter um significado mais aterrador. Dirigidos contra um jornal, significam a rejeição da democracia ocidental, já que a liberdade de expressão e de opinião constituem o suporte e a condição do sistema democrático.
A outra questão tem a ver com a forma com os atentados foram organizados. Eles resultaram duma programação e treino apurados, ultrapassando os atentados bombistas que acarretam a morte dos portadores dos explosivos. Neste caso, os terroristas têm objectivos bem determinados não sendo movidos pelo desespero indeterminado. Em segundo lugar, estas acções são difíceis de prever e detectar, já que são feitas por grupos não integrados em organizações e que usam os seus próprios recursos.. Em terceiro lugar, os terroristas têm treino apurado não apenas dado pela Al-Qaeda mas sobretudo pelo Estado Islâmico.
Mas porquê agora? Em grande medida os ocidentais são responsáveis pelo que está a suceder. Na sequência do fim da guerra fria e da hegemonia dos Estados Unidos, da globalização, da internacionalização dos mercados, bem assim como de ideologias como a de Fukuama sobre o fim da história, os americanos assumiram a missão de impor o modelo democrático a todos os povos. Primeiro foi o Afeganistão, depois o Iraque e, de seguida, os países do Norte de África. Os regimes destes países haviam nascido após a independência, eram fortemente nacionalistas e mesmo progressistas, mantendo sufocadas as forças conservadoras e retrógradas estruturadas em organizações ligadas às mesquitas e arvorando-se em defensoras do verdadeiro Corão.
A queda desses regimes que progressivamente se haviam convertido em ditaduras, por interferência ocidental, não apenas mergulhou esses países na barbárie, como fez vir ao de cima a Irmandade Muçulmana e outros movimentos radicais que viam nos valores ocidentais o inimigo a abater. E neste momento os ocidentais estão rodeados e têm no seu seio milhões de pessoas que rejeitam os valores ocidentais da democracia e de direitos humanos e que em alguns casos podem ser tentados a aderir a organizações radicais e jidaistas.
Ouviu-se dizer na manifestação do último domingo em Paris que agora é a hora dos políticos. E é verdade. Mas estes podem ser tentados a adoptar políticas securitárias que limitem as liberdades. E este não é o melhor caminho. Isso é o que quer a extrema-direita e significa a vitória dos terroristas.

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