Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Ciclos de confiança

Sem paralelo

Ideias

2012-11-23 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Nos últimos dias, ou semanas, por entre a discussão do orçamento para 2012, a necessidade de reestruturar ou mesmo transformar o estado social a que nos habituamos, a discussão á volta dos fundos estruturais em Bruxelas, o atraso no acordo com a Grécia, o corte das agências de notação à França mas também aos gigantes electrónicos japoneses como a Sony ( que passou a ser classificada como “lixo”), os 1,5 milhões de impressos distribuídos pelo governo grego para informarem os imigrantes sobre um programa de retorno aos países de origem sem pagamento das viagens, chamou-me a atenção de forma particular a resposta dada no Algarve ao tornado.

No contexto dos assuntos listados, parece obviamente um assunto de muito menor importância, e seguramente que o é. No entanto, o que se assistiu foi a uma resposta rápida, voluntária, não estruturada, de base individual mas participada. Tenho visto algumas referências a que isso traduz o espírito de colaboração dos portugueses; discordo completamente dessa visão romântica. Os mecanismos de interajuda com estas características não são típicos em Portugal; espera-se normalmente que que alguém ajude, o Estado de preferência.

Depois, talvez, se ninguém surgir, se tudo demorar, se o tempo queimar optimismos e promessas, se juntem boas vontades. Na verdade, foi por isso que as fotografias de pessoas, incluindo estrangeiros, a varrer as ruas, a recolher estragos, a arranjar de imediato casas e instituições, foram tão notadas.

Tenho muitas vezes referido nestes breves apontamentos a importância dos benefícios que resultam para todos da confiança e da cooperação. Não é apenas filosofia, ou ética; economistas e historiadores diversos têm chamado a atenção para as espirais de conflitos em resultado de medo , muitas vezes não mais do que isso. Do medo do que o outro possa ou não fazer, a partir daquilo que cada um pensa ou imagina que o outro fará. Infelizmente, há muitas histórias de guerras começadas por esta razão, desconfiança ou medo, mas também conflitos interorganizacionais em diferentes níveis , bem como rivalidades de mercado entre empresas, ou mesmo na política.

Um artigo muito interessante, recente, mostra que apesar de tudo há ciclos também na desconfiança (Acemoglu e Wolitzky) . Ou seja , os conflitos tendem a acabar porque a partir de um dado momento se uma das partes levantar a bandeira branca, as acções deixam de ser interpretadas como todas más, e iniciando um processo colaborativo, o conflito pára. Na fase cooperativa do ciclo, a comunicação entre as duas partes, ou os dois grupos, tem de existir e permitir a prestação de informação.

A União Europeia não estava preparada para o euro; foi mais ou menos começar a construir a casa a partir do tecto; é sempre mais fácil a economia do que a política. E não estava obviamente preparada para a esta crise tão grave e tão extensa . Não existindo instituições efectivas de natureza política supranacionais (e o Banco Central Europeu não tem de forma alguma a capacidade de intervir nos mercados que existe nos Estados Unidos com o Fed) cada país olha para si e tenta - digamos assim - safar-se. No fundo, neste jogo perigoso que está a ser jogado, acho que a história da integração europeia mostra que existe uma janela, uma oportunidade para que se entre num ciclo de confiança e se consiga acabar de construir a casa.

Claro que com um enquadramento diferente, com mais exigência, informação e controlo. Mas com melhores perspectivas para o futuro, e que não seja apenas o da minha neta, porque um dos resultados deste extraordinário progresso tecnológico foi alterar a noção do tempo.

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