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Cimeira dos BRICS: alargamento e desdolarização

Três em linha para uma sardinha

Cimeira dos BRICS: alargamento e desdolarização

Ideias

2023-09-23 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Realizou-se muito recentemente em Joanesburgo (África do Sul) a 15ª cimeira do grupo de países designado pelo acrónimo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) onde os chefes de Estado e de Governo destes avançaram com propostas visando o reforço entre si da cooperação de segurança, energética, comercial, económica e social.
Por outro lado, consideram como um desiderato fundamental do BRICS o estabelecimento de uma nova e mais justa ordem internacional, o que passa pela emergência de um mundo multipolar. Para isso, os países emergentes do BRICS pretendem acelerar o desafio à atual posição hegemónica dos Estados Unidos (EUA) e aliados ocidentais.
Hegemonia que sucede desde o fim da 2ª Grande Guerra com o estabelecimento do Sistema de Bretton Woods (SBW) baseado num regime de câmbios fixos mas ajustáveis “adjustable peg” e na existência de uma moeda central nas transações internacionais, o dólar USA, que seria a única moeda com paridade convertível em ouro.
Com o colapso do SBW em 1971 após a declaração do presidente R. Nixon dos EUA tornando o dólar USA inconvertível em ouro. Desde aí, predominou a nível mundial um regime de câmbios flutuantes ou flexíveis. Mais tarde, os países mais industrializados do mundo se organizaram no chamado grupo G7 (Canadá, EUA, Alemanha, França, Itália, Reino Unido e Japão).
Ora, com referimos o BRICS nos últimos anos passou a colocar em causa o papel central internacional do dólar USA como meio de pagamento e reserva cambial mundial, tentando, assim, fazer acelerar o fenómeno da em crescimento de desdolarização provocando um maior distanciamento do dólar USA a nível mundial. Seria, na 15ª cimeira do BRICS que se avançou para o alargamento do BRICS com efeitos a partir do início de 2024. Passam a aderir ao grupo mais seis países: Argentina, Irão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Egito (BRICS+).
Vai-se agora a sintetizar os seguintes pontos:
(1) Alargamento do BRICS;
(2) Distanciamento face ao dólar USA e a desdolarização;
(3) Visão crítica.
(1) O novo BRICS+ pode aumentar e muito a sua importância estratégica à escala global ao representar 37% do PIB mundial e quase metade da população mundial (47%), números bem acima dos relativos ao grupo G7 com 29,8% do PIB mundial e 9,8% da população mundial. Mais, o grupo BRICS+ possui uma grande parte das reservas mundiais de petróleo, gás e de outros recursos naturais importantes.
(2) O novo BRICS+ pretende criar condições para a redução da dependência externa do grupo face ao dólar USA e, em simultâneo, consolidar o papel das moedas locais nas transações bilaterais. Quer dizer, tenta-se concretizar o fato do comércio entre os países integrantes do BRICS+ e destes com terceiros países se faça usando cada vez mais as suas próprias moedas. Logo, pretendendo torna-las em um meio de pagamento e reserva cambial internacional concorrencial com o dólar USA, reduzindo a influência do dólar USA nas transações comerciais e financeiras internacionais.
Uma das estratégias aprovadas para reduzir a dependência dos países do BRICS face ao dólar USA foi a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (2015), o “Banco do BRICS”. A atual diretora do banco é a brasileira Dilma Roussef defensora “da utilização de moedas locais nos empréstimos de forma a encorajar a utilização de alternativas ao dólar USA nas transações mundiais, o que permite aos mutuários evitar o risco cambial e as variações das taxas de juro dos EUA.
(3) A 15ª cimeira dos BRICS sinalizou a importância estratégica das economias emergentes do BRICS+ ao defender uma nova forma de alianças diplomáticas e governação internacional. Porém, vários analistas apontam fragilidades na intenção de unidade geopolítica do grupo, por abranger países muito diferenciados entre si, com posições distintas sobre muitos assuntos internacionais e com regimes políticos opostos (democráticos e autocráticos).
Exemplificando, o presidente brasileiro Lula da Silva defende que o grupo “não quer ser contraponto ao G7 ou ao G20, nem aos EUA”, mas sim, que os países se organizem em termos de multipolaridade mundial.
Ao invés, a China lidera os países mais ambiciosos ao referir que ao alargarem o BRICS “está-se a representar uma fatia semelhante do PIB mundial ao G7, então, a voz coletiva no mundo ficará mais forte”, sugerindo o objetivo de rivalizar o BRICS+ com as grandes economias dos EUA e países ocidentais.
Concluindo, a força que o grupo BRICS+ pode vir a ter à escala global parece ser ainda algo incerta dada as ambições e divisões existentes no seio do grupo. Porém, é verdade que o BRICS+ ao integrar países que são grandes produtores e exportadores de petróleo mundiais não deixa de acelerar o fenómeno atual de desdolarização, ou seja, “com o dólar USA correndo o risco de perder ainda mais a sua influência nos mercados internacionais”.

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