Correio do Minho

Braga, terça-feira

Coelho, o Adamastor

Um excelente exemplo de branding

Ideias Políticas

2011-12-23 às 06h00

Carlos Almeida

Diz o Primeiro-ministro que os tempos que vêm são de tamanho sacrifício para todos, mas diz também que valerá a pena e que os esforços que nos são impostos serão “o nosso passaporte para vencermos as dificuldades em que estamos” e, acrescenta, “a partir de 2013 todos estaremos mais confiantes de que Portugal terá dobrado o cabo das Tormentas”.

Aludindo à forma corajosa com que os navegadores portugueses enfrentaram as árduas condições marítimas no cabo da Boa Esperança, Pedro Passos Coelho, bem ao seu estilo de falsa ingenuidade e extrema sensibilidade, apela à imensa fé do povo português, quase como que dizendo ao escravo agarrado à árvore “vá lá, já falta pouquinho, são só mais umas quantas chicotadas, depois podes voltar a servir-me”.

O que Passou Coelho ignorou foi que ao convocar o facto histórico do cabo das Tormentas pôs-se a jeito para empossar o papel de Adamastor, criação do poeta para ilustrar a terrífica tarefa que os navegadores portugueses haviam assumido.

Da mesma forma, Passos Coelho representa para os portugueses o pior dos pesadelos, enquanto primeira figura responsável pelo caminho que os obriga a percorrer.

A monstruosidade das suas propostas políticas, penalizando a generalidade das pessoas (não todas - uns poucos continuam a receber benesses), empurrando para o sofrimento milhares de famílias, atormentadas pelo desemprego, pela fome e pobreza extrema.

É Passos Coelho também responsável pelo desespero que emerge nos jovens deste país, que deixaram de ver na sua formação uma mais-valia, um ponto a seu favor que seja, apesar de esta sair cada vez mais cara a cada um, ao passo que vêem o chefe de governo convidá-los à emigração. Essa mesma emigração que no passado levou ao sofrimento e à exploração inúmeras famílias.

É de Pedro Passos Coelho o rosto que corporaliza a lógica neoliberal de mais trabalho por menos dinheiro, seja pelo corte nos vencimentos ou aumento de impostos por um lado, ou pela redução dos dias de feriado, dos dias de descanso, dos dias de férias, e, repescando uma prática comum há séculos atrás, pelo aumento do horário de trabalho.

Como pode o povo português acreditar que depois dos sacrifícios virão dias melhores, se aqueles que nos prometem isso são os mesmos que nos atolaram neste poço sem fundo? Como quer Passos Coelho, líder do PSD, que acreditemos no que diz, quando o seu Partido, a par do PS e do CDS, foi responsável pela governação do país nos últimos 35 anos?

Como querem que confiemos a solução da crise que atravessamos a quem a criou e é responsável por ela?

É por isso que, no mesmo estilo lendário com que o povo português desafiou Adamastor, saberá também desafiar Pedro Passos Coelho e obterá o mesmo resultado épico. O povo português já demonstrou por diversas vezes na sua longa história que é capaz de ultrapassar um qualquer cabo das Tormentas. Estou convicto que fá-lo-á de novo, mas que não será em vão como pensa e deseja o Primeiro-ministro. Derrotando o medo, abrirá caminho em direcção a uma nova vida de esperança e confiança nas suas potencialidades.

Portugal e o povo português não estão condenados à austeridade e à subserviência. É possível construir uma alternativa. E é com esta certeza que devemos encarar o ano que temos pela frente. Sabendo que nós depende o futuro do país. Da nossa capacidade em assumirmos nas nossas mãos os destinos das nossas vidas. É com esse desejo que espero que todos os leitores tenham umas óptimas festas, confiando que o novo ano será assim melhor para todos.

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