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Coerência, precisa-se!

Decisões que marcam

Coerência, precisa-se!

Ideias

2021-06-01 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

As críticas que o Presidente da República endossou ao Governo a propósito da final da Liga dos Campeões foram invulgarmente duras, mas perfeitamente ajustadas à penalizante situação de que a cidade do Porto foi palco nos últimos dias. Uma situação que, conforme se pôde constatar através das perturbantes imagens televisivas e fotográficas, não correspondeu minimamente àquilo que tinha sido prometido aos portugueses.
O Governo, através da ministra Mariana Vieira da Silva, tinha garantido que “as pessoas que vierem à final da Liga dos Campeões virão e regressarão no mesmo dia, com testes obrigatórios feitos ainda antes de entrar no avião, e estarão sempre em situação de bolha". A ministra chegou mesmo a especificar que os adeptos ingleses estariam "em território nacional menos de 24 horas".
O que aconteceu, e que aliás as televisões transmitiram abundantemente, foi completamente diferente: uma parte considerável dos adeptos manteve-se vários dias em Portugal, registaram-se diversos confrontos a obrigarem à intervenção das forças da ordem, assistiu-se ao consumo de bebidas alcoólicas nas ruas, mesmo após o horário de encerramento dos estabelecimentos, o que metamorfoseou algumas artérias em autênticos bares, e, finalmente, não foram cumpridas nem as regras de distanciamento nem a obrigatoriedade do uso de máscara.
Entretanto, e face ao triste cenário que se começava a desenhar, surgiu aquilo que se pode considerar como “actualização” ou correcção do discurso inicial, ou seja, foi anunciado que os adeptos sem bilhete poderiam assistir ao jogo, através de ecrãs gigantes, os do Chelsea na Avenida dos Aliados, e os do Manchester City na Alfândega do Porto, nos dois casos com a obrigatoriedade (?) de apresentação de teste negativo ao novo coronavírus.
"Não se pode dizer que temos que obedecer às regras, fixa-se um limite e depois o limite já não é esse, é outro", reagiu, e bem, Marcelo Rebelo de Sousa, no sábado, lembrando que "não é possível dizer que vêm em bolha para assistir a um espectáculo desportivo e depois não vêm em bolha. Não é possível", concluiu.
O Presidente da República tem inteira razão para endurecer as suas críticas nos termos em que o fez. "Quando se comunica que se vem em bolha é porque se vem em bolha”. A não ser assim, diz-se que “uns vêm em bolha, outros não. E depois tem de se explicar por que foi diferente. E tem de se ter a noção do exemplo que se dá".
Visivelmente incomodado com os acontecimentos e com as consequências que daí poderão advir, quer no plano da evolução da pandemia quer em termos da credibilidade da mensagem que é passada para os portugueses, Marcelo quer que este péssimo exemplo sirva de lição.
"O discurso tem de bater certo com a realidade. As pessoas criticam se não bater certo com a realidade. Houve circunstâncias que não decorreram como tinha sido dito que ia decorrer. Acontece, mas é uma lição", advertiu o Presidente.
Os lamentáveis acontecimentos vividos no Porto trouxeram de imediato à memória os recentes incidentes de Lisboa, aquando do jogo em que o Sporting se sagrou campeão nacional. Ali, como na cidade invicta, o amadorismo e o facilitismo foram as notas dominantes. O presi- dente da Câmara do Porto chegou a afirmar, categoricamente, que “o que sucedeu em Lisboa, aqui não irá suceder”! Por seu turno, ao referir-se aos acontecimentos de Lisboa, a ministra Mariana Vieira da Silva adiantou que “todos viram que regras que vigoram sobre impossibilidade de ajuntamentos e proibição de consumo de bebidas alcoólicas não foram cumpridas.” E no Porto, foram? Pois é, pela boca morre o peixe, como diz o ditado popular…
Creio que nesta fotografia do passado fim-de-semana ninguém fica bem.
Como se já não bastasse a incompreensível dualidade de critérios que permitiu, neste caso, a presença de adeptos no estádio, ainda se criaram condições para que acontecessem grandes aglomerações de pessoas, com a agravante de lhes ser permitido o consumo de bebidas alcoólicas. Ou seja, ocorreu tudo que não era aconselhável nem deveria acontecer.
Aparentemente, ficamos com a falsa ideia, que infelizmente a prática não desmente, que o estado de calamidade decretado pelo governo só se aplica aos cidadãos nacionais. Os estrangeiros, mesmo aqueles cujo histórico comportamental aconselha serem acompanhados de perto por autoridades policiais do seu país de origem, ficaram inexplicavelmente isentos de cumprir as regras aplicáveis em Portugal.
No fundo, e para além de uma mensagem clara e coerente, que é coisa que não tem existido, exige-se o cumprimento rigoroso das regras que a evolução pandémica impõe a cada momento. A não ser assim, ao desvalorizar-se e desculpabilizar-se constantemente os erros do governo, está-se a contribuir para desacreditar a autoridade do Estado, que é o caminho mais directo para a rebaldaria e para o caos.
E não adianta vir declarar mais ou menos solenemente, como tem acontecido sempre que ocorrem situações anómalas, que se trata de uma lição da qual é preciso tirar ilacções.
E não adianta porque já constatámos que estes “alunos” têm muita dificuldade em aprender as lições. Aparentemente, já lá não vão nem com explicações ou desenhos. A reprovação é inexoravelmente o seu destino!

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