Correio do Minho

Braga, segunda-feira

'Coisas de Família', por Laura Pires

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Conta o Leitor

2010-07-23 às 06h00

Escritor

Quando a irmã lhe telefonou para o emprego naquela manhã a pedir-lhe que se encontrassem ao almoço para conversar um bocado, Joana desligou o telefone com um sorriso nos lábios.

Adorava a irmã. Apesar das suas mudanças de humor, do seu temperamento ora dócil, ora intempestivo, da sua permanente inconstância. Estava habituada a que lhe telefonasse três vezes no mesmo dia e depois mantivesse o silencio e a ausência por longos períodos de tempo que acabava por ser ela a quebrar com um telefonema que era sempre atendido com um enorme entusiasmo e um imenso chorrilho de pormenores sobre a sua mais recente e importantíssima ocupação: não interessa o quê, porque essa ocupação (tecelagem; criação de bichos de seda, cultivo de tomates transgénicos, o que fosse) acabava sempre por ser abandonada passado muito pouco tempo e, aparentemente, nem recordação deixava.

Felizmente, o cunhado era bom homem, tinha uma paciência de santo, gostava dela e tinha um excelente cargo na companhia; algo que lhe permitia pagar-lhe as “manias”, manter-se saudavelmente ocupado e distante e usufruir do convívio (e nem sempre só do convívio) de outras pessoas aparentemente mais equilibradas do que a própria mulher.

À hora do almoço, Joana saiu, pois, para ir encontrar-se com a irmã num daqueles restaurantes Italianos de que ela gostava mesmo quando o seu humor não era dos melhores. Pelo sim pelo não, antes de sair informou que talvez nesse dia prolongasse um pouco a hora do almoço visto que tinha uns assuntos de família para tratar.

Quando chegou ao restaurante, a irmã já lá estava. Sentada a uma mesa situada no canto mais discreto da sala como sempre fazia. Elegante e arranjadíssima, linda e vagamente misteriosa. Sem que o desejasse, a irmã sempre a fizera sentir-se um patinho feio. Não precisou de um espelho para “ver” que devia ter pintado o cabelo já há duas semanas, que não devia ter deixado de ir ao ginásio, que as suas botas eram do ano anterior e que a cor do seu casaco não condizia de todo com o tom da sua mala. Tudo isto e muito mais caiu instantaneamente sobre ela e fê-la sentir-se como sempre quando estava junto da irmã: apagada, pobre e sem graça.

A irmã nem lhe deu tempo para sentar-se, atirou imediatamente: - O pai vai casar-se outra vez!
- O quê?
- Ouviste bem. O pai vai casar-se outra vez. Com a Teresa.
- Com quem?
- Com a Teresa, a cabeleireira. Aquela que tinha um salão de cabeleireiro lá na rua.
- A cabeleireira do salão que tinha os letreiros da l’Oréal? Chama-se Teresa? Já não me lembrava.
- Essa mesma.
- Onde é que foste buscar essa ideia? O pai não iria chegar ao ponto de estar para casar sem nunca ter dito nada. Provavelmente encontrou-a num sítio qualquer e por boa educação convidou-a para tomar um café. Sabes como ele é. Tu é que começas logo com um torvelinho na cabeça sempre que sabes que ele esteve com alguma mulher.
- Estou a dizer-te. Até já marcaram data e andam a tratar de tudo. Vão casar depois do Verão. Parece que o pai vai vender a casa e viver para a dela. Pelo menos foi o que me disse.
- Foi o que te disse? O pai deu-te esses pormenores todos e comigo nem sequer falou?
- Ele pediu-me para ser eu a dizer-te. Diz que tem medo da tua reacção.
- Da minha reacção? - Joana aparentava ir de surpresa em surpresa. - Se eu sempre lhe disse que devia voltar a casar.
- Oh Joana! Tu dizes muitas coisas, mas nós sabemos bem como tu és.
- Mas como é que eu sou afinal?
- Ora. Tens uma casa perfeita, um casamento perfeito, dois filhos perfeitos, um emprego perfeito. Andas sempre impecável. Sabes sempre o que dizer e o que fazer, tens explicação para tudo, até arranjas tempo para tratar de todos os pormenores das festas de anos dos teus filhos. Não tens fraquezas nem vícios. Estás sempre disponível para nós. Nem quero imaginar como o pai se sentiria se fosse ele a contar-te: bombardeava-lo com perguntas, conselhos e mais aquele milhão de cuidados, precauções, medidas e sugestões úteis, que não lembram a ninguém a não ser a ti. Quando acabasse de falar contigo, o pai já nem saberia muito bem se havia de casar-se ou de suicidar-se.
Joana estava sem palavras. A irmã afagou-lhe a mão que mantinha pousada em cima da mesa.
- Desculpa. Não queria ofender-te. Todos sabemos que és a melhor de nós e sem ti nem sei o que seria por vezes da minha vida, mas às vezes fazes-nos sentir pequeninos e incompetentes.

O resto do almoço decorreu normalmente, ainda falaram bastante sobre o próximo casamento do pai e sobre a mulher que escolhera para casar. A Teresa! Quem diria! Mas parecia boa pessoa e até gostavam dela em miúdas, dava-lhes sempre um rebuçado ou um chupa quando iam lá cortar o cabelo. E a mãe também gostava muito dela. Eram amigas. A mãe às vezes até dizia que se não fosse a Teresa, não tinha ninguém na vida. Mas isso deviam ser saudades da família que vivia toda lá na terra e só via muito raramente.

No fim despediram-se com dois beijos e a irmã disse-lhe: - Vou ligar ao pai a dizer que já te pode telefonar. Ele está ansioso para saber como correu o nosso encontro e como encaras a situação.

Teresa voltou para o emprego. O almoço não tinha durado muito e conseguiu chegar a horas.

Ao final da tarde, de regresso a casa, pegou no telemóvel e ligou para o pai:

- Estou? Pai? A Maria aceitou muito bem a situação. Está felicíssima por ires casar-te e ainda mais por ter sido ela a contar-me. Não precisavas era de lhe ter dado aquelas justificações todas e encomendado um tal sermão.
- Do que é que estás a falar? Só fiz o que combinámos: quando lhe contei, pedi que fosse ela a dizer-te porque tinha receio que reagisses mal já que a Teresa era amiga da vossa mãe. Não sei do que é que estás a falar.
- Deixa lá, pai, sou eu que estou cansada. Os miúdos têm estado constipados e tenho dormido pouco. Beijinhos.
- Beijinhos, querida. E obrigado. Pelo menos desta vez a tua irmã não vai entrar em depressão.

***
- Estou? Teresa? As minhas filhas já sabem e ambas estão de acordo com o casamento. Já podemos tratar dos papéis descansados que elas hão-de ir as duas e dar-nos a sua bênção. Desculpa, mas para mim era importante que elas aceitassem.
- Eu bem te dizia que elas aceitariam. Já são duas mulheres, têm a vida delas, são inteligentes e só querem que sejas feliz. Agora vá, ainda tenho que despachar duas clientes e já são quase horas de fechar o salão.
- Até logo querida.
- Até logo amor.

***
- Estou? João? A Maria já me contou do pai. Estava contente que nem um pássaro por ter sido ela a escolhida para mensageira.
- E como é que ela está a reagir? Não está a dar em doida por o pai ter arranjado outra mulher?
- Nem penses. Já te disse. Ficou tão contente por o pai a ter achado mais equilibrada do que eu, que nem sobre isso se deteve.
- Ainda bem. É melhor para ele. E nem vocês precisam de andar sempre preocupadas com ele e com a velhice dele. Já tem companhia.
- João?
- Sim?
- Achas que eu sou uma chata perfeccionista?
- Claro que não. Porque é que perguntas isso?
- Ora, por nada, deixa lá.
- Está bem. E que maravilhosa iguaria culinária das tuas vais hoje preparar-nos para o jantar?
- Sei lá. Qualquer coisa simples, acho eu. Estou cansada.
- Cansada? Tu? Coisas simples? Estás a brincar comigo. Até logo, amor. Eu levo o vinho.
- Tinto, João, por favor e de preferência do Douro, Casa Amarela de 2005, se houver.
- Está bem, não te preocupes que vai sair perfeito como sempre.
- Eu sei querido. Beijinhos.
- Até logo.

***

- Estou? Mariana? Já podes contar do Manel às tuas filhas. Agora que estão todas contentinhas com o casamento do pai, de certeza que não vão criticar a mãe por fazer o mesmo.
- Achas mesmo?
- Claro! Por mais conservadoras que sejam aquelas tuas filhas, não deixam de ser mulheres desta época e de ter a mania das igualdades: se o pai pode, então a mãe também pode.
- E como vais fazer com ele?
- Sei lá! Vou deixar andar mais algum tempo enquanto as tuas filhas se habituam à ideia do teu casamento e depois dou-lhe com os pés. Depois de tudo pelo que te fez passar nem melhor sorte merece, aquele filho da puta. Cada vez que me lembro! Coitadinhas das meninas! Felizmente eram muito pequeninas e deixaste-o a tempo. Não penses mais nisso.
- Obrigada Teresa. Se não fosses tu nunca arranjaria coragem para lhes dizer. São as duas tão perfeitas e tão tradicionalistas que às vezes até me sinto uma devassa ao pé delas.
- Deixa isso, mulher. Afinal, para que servem os amigos?
- Tens razão Teresa. Obrigada. E agora vê lá mas é se pensas em ti e arranjas companhia para levar ao casamento.

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