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Coisas que aprendi este ano

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Coisas que aprendi este ano

Voz aos Escritores

2021-03-12 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Mais dias menos dias, no meio de tantos suspensos, estamos a fazer o primeiro aniversário de convivência com o Covid-19. No início com muito medo, receio de tudo, alarmes soavam e ânimos exaltavam-se. Hoje, mais conhecedores do famigerado bicho graças à comunidade científica, estamos sobretudo mais cansados. Cansados e com medo de morrermos de fome e não do bicho, passando algum exagero.
Não aprendi uma língua nova, não li mais livros do que o normal, acho que pelo contrário, não escrevi mais e menos ainda uma obra-prima. Não fiz mais exercício. Arrisquei um pouco mais nos cozinhados, experimentei algumas receitas e ingredientes, mas muito longe de me tornar uma chef ou pasteleira. Acho que para isso tinha de morrer e nascer outra vez. Não aprendi a coser ou a costurar, tarefa que me parece restrita e apenas para quem tem mãos de fada. Não me dediquei à decoração, nem à limpeza desenfreada da habitação.

Procurei manter-me informada, exaustivamente informada, e quase endoideci. De tal forma que depois senti necessidade de me desligar e de estar envolta em coisas que me distraíssem mais do que me fizessem pensar. Procurei dormências e intermitências da consciência sem recurso a químicos. Aninhei-me por entre poemas, velhos e novos amigos, num embalo redondo de restauro de fés. Pouco restauro, mais embalo.
Dei comida, dinheiro, investi em cultura para consumo doméstico. Apoiei como pude quem me está à distância do que alcanço. Não faz de mim uma pessoa melhor, apenas quem sou. E conheço quem tenha feito e faça muito mais. Procurei criar pontes de comunicação e entreajuda. Procurei dar o meu melhor. O ensino à distância é um vale de tormentos, mas pode também ser um cume de conquistas de autonomias. Tudo é aprendizagem.
Aprendi logo no primeiro confinamento que a humanidade não vai melhorar, pelo contrário. Tanta lição valiosa a ser aprendida, mas sem alcance. O mundo vai continuar a levar connosco do alto da nossa individualidade e altivez. Parece-me até que a tendência será mais de divisão em pequenas unidades identitárias do que de união global. No limite, cada região lutará pela independência e teremos mais umas quantas pequenas nações. A elasticidade que permite o respeito, a negociação, o entendimento e o compromisso está cada vez mais seca. Gostava muito de estar enganada.

Coletivamente somos latinos, mas pouco. Batemos palmas à janela uma vez, não cantamos nem dançamos, nem os nossos artistas vêm muito à janela dar espetáculos à comunidade. Remoemos, interiorizamos. Sofremos muito em silêncio e escolhemos sofrer. O que fazemos com essa dor? Acumulamos. Acumulamos só para atirarmos à cara do primeiro que nos contrariar uma mundividência de trazer na algibeira. Descarregamos e sentimo-nos vencedores do lugar na fila para a caixa do supermercado. Passar os dias em agressões ou atos mesquinhos pode ir aliviando alguma pressão à panela, mas não resolve de todo o problema. É como tratar o sintoma e não a doença.
Também não somos espanhóis ou holandeses para virarmos as ruas do avesso, ainda bem. Seria pôr sal em ferida aberta.

Agradecemos o sacrifício e a dedicação dos profissionais de saúde, mas se eles saírem em manifestações a exigir melhores condições de trabalho e mais investimento no SNS não vamos ao lado deles nas ruas. Não estaríamos a lutar por eles, estaríamos a lutar por nós, mas temos o umbigo maior do que o olho.
Quanto à saúde mental e ao isolamen- to contínuo, o tempo dirá as consequências. O que mudaremos com tudo isto parece-me pouco, perante uma ansia con- tínua pelo regresso ao normal pré-pandémico.
Por mim, continuo às voltas com as palavras, editei um livro sobre o Variações e escrevi um bela estória de amor entre um pedaço de terra e uma nuvem. Não sei se algum dia será editada, mas sinto que escrever esta estória no verão passado me salvou de algo escuro. Acredito que cada um se agarre às tábuas que tem por perto. No limite, é o amor que nos salva, por muito lamechas que possa parecer.

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