Correio do Minho

Braga, terça-feira

Comemorar Abril: formas e conteúdos

O conceito de Natal

Ideias Políticas

2014-04-29 às 06h00

Carlos Almeida

Não era uma data qualquer. Comemorava-se, na passada sexta-feira, os quarenta anos da Revolução de Abril. Muitas foram, por isso, as entidades que, desta vez, entenderam comemorar (outras apenas assinalar) a efeméride.

Em Braga, tal como em várias outras localidades do país, as organizações sindicais da CGTP, alguns movimentos e associações locais promoveram ao longo do mês várias iniciativas: debates sobre direitos laborais, sobre a Constituição da República Portuguesa (ela própria fruto da Revolução e projecto transformador que lhe deu corpo), espectáculos culturais, exposições, animação de rua, etc, culminando as comemorações com uma festa e desfile popular no próprio dia 25 de Abril, coincidente, aliás, com a merecida homenagem que o município de Braga prestou ao democrata Francisco Salgado Zenha.

Numa outra dimensão das comemorações, houve quem se concentrasse no campo da exposição de ideias. E se, quanto à forma, nada tenho a apontar, o mesmo não posso fazer quanto ao conteúdo. Quem fez de tudo para que Abril se cumprisse, não o fez para que o mundo falasse a uma só voz. Quem lutou para libertar o povo português do fascismo, do obscurantismo e da repressão, não o fez para que se viessem a institucionalizar outras ferramentas de segregação, controlo, deturpação e mentira.

É, por isso, angustiante assistir a supostas iniciativas de comemoração do 25 de Abril, muitas das quais promovidas por entidades públicas, em que, propondo-se celebrar os valores da liberdade e da democracia, sistematicamente se violam os princípios mais indispensáveis à pluralidade de opiniões. Falo da construção planeada de painéis compostos por ilustres personalidades, alguns oriundos das forças radicais de esquerda, outros porque por lá passaram na sua juventude.

Falo ainda das sessões encomendadas às Juntas de Freguesia e a algumas entidades privadas, dos “fatos à medida” do candidato ao Parlamento Europeu José Manuel Fernandes. Claro que não está em causa a participação destes oradores como convidados, mas não posso ignorar que sejam sempre os mesmos a ficar de fora. Será alguém capaz de negar ou apagar o papel determinante que muitos homens e mulheres, comunistas e outros democratas, tiveram durante a longa e heróica resistência à ditadura de quarenta e oito anos? Será possível comemorar a data que pôs fim à ditadura fascista pondo sempre de lado aqueles que em muitos casos foram os principais intervenientes do processo de libertação?

Não compreenda o leitor esta angústia como um acto de inveja, muito menos como uma manifestação de quem se sente dono da Revolução de Abril. Compreenda, isso sim, como algo que não posso aceitar, que não podemos permitir, principalmente quando estamos a comemorar os quarenta anos de liberdade.

Não se trata, pois, de querer dominar ou determinar o conteúdo das comemorações, tão-só entendo que não posso sossegar, principalmente enquanto jovem que nem sequer era nascido em 25 de Abril de 1974, assistindo à reconfiguração histórica da mais bonita revolução do povo português. Nós, jovens, temos o direito de saber o que foram os longos anos de fascismo em Portugal, quem foi Salazar, em que condições miseráveis viveu o povo português, o que era a participação na guerra, o que era não ter escola, nem médico, nem sapatos para calçar.

Nós, jovens, temos o direito de saber que sempre houve quem se levantasse, desafiando o medo e a repressão, no combate pela liberdade, pelo pão, pela terra, pela paz.
Nós, os jovens que não viveram essa página negra da história, temos esses direitos. Para que nunca mais se repita!

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