Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Como Naquele Dia

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Conta o Leitor

2012-08-23 às 06h00

Escritor

Por Liliana Pinheiro Gonçalves

“Porque que me apaixonei por ele?
Bem, ainda hoje pergunto isso a mim própria… Porque é ele, porque sou eu, porque tornou-se nós. Pela simplicidade, pelo sorriso, pela solidariedade, por partilhar.
Para quê não ser egoísta? Pelo prazer, sim pelo meu, e pelo dele.
Se é amor?
Como é que se sabe mesmo?
Este é o nosso amor, assim pode não ser o teu, não é o teu, e ficamos todos bem.
É bom, isso deve bastar. Não é egoísta e esse é o segredo. O segredo é cuidar, preocupar-me com ele, e ele comigo. E quando há algo mau, passa, e volta o riso, e o mundo é um mundo melhor. Mas parte de mim tem a certeza que é amor. A outra parte é ocupada por ele, não sei o que ele pensa…
- Isto é amor? - perguntei-lhe.
Ele riu-se, largou a minha mão e reajustou o espelho para ele. Arranjou o cabelo, olhou para mim e sorriu:
- Depende, estou bonito?
- Não estás ridículo, teres olhado o espelho, teres arranjado o cabelo e a seguir me perguntar se estás bonito é ridículo, egoísta, e estupido. Lembro-me de ter-me apaixonado por ti por não te preocupares com esse tipo de detalhes - virei a cara em forma de desprezo.
-É amor - disse sorrindo.
Olhei para ele confusa.
Ele olhou para mim como que o que disse fosse completamente normal.
-É - reafirmou - se não fosse tu dirias: “claro, tás lindo, o meu menino é um anjo, és perfeito bla, bla, bla”.
Tossiu um bocado quando acabou, devido à ‘vozinha’ que tinha aplicado ao discurso.
Sorri contente. Então era amor. Olhei para ele e sorria também, voltei a dar-lhe a mão.
Chegamos, então ele parou em frente à casa da D.Maria.
Saí, fui à mala da carrinha do lar e tirei as sacas, abri a porta do pendura outra vez e tirei uma caixinha do tablier outra vez. A D. Maria tinha perdido os seus brincos de sempre no outro dia, eram de ouro e fora o seu falecido marido que lhos deu. Eu comprei aqueles que me pareceram iguais e reconfortava-me saber que ela teria algo nosso com ela.
Fui para a beira do Alex que já estava ao pé da porta com os restos dos sacos. Mexia no cabelo… ele costuma fazer isso quando está nervoso.
-O que é que tens? - perguntei quando o alcancei.
-Nada - mentiu enquanto batia à porta - porque é que perguntas?
-Por nada. - vinguei-me e ele riu-se.
A porta abriu-se e atrás dela o sorriso da D.Maria.
-Micas! - exclamei com um sorriso, entrei e abracei-a da forma que pude devido ao peso de todas as sacas.
-Oh meu amor! - exclamou o Alex abraçando-a - Como está a minha flor de bem-me-quer?
Deixei as sacas, encostei-me à banca e perdi-me a observar o carinho com que o Alex tratava a D.Maria tal como tratava todos os outros idosos que nós visitávamos.
Tinha combinado com o Alex que seria ele a dar os brincos à D.Maria e eu seria a que providenciaria um pequeno discurso.
Continuei a ver o Alex, estava a explicar à D.Maria tudo o que trazíamos nos sacos naquela semana enquanto arrumava as coisas pela sala em armários e no frigorífico.
Colocava agora os comprimidos numa caixinha que nós lhe oferecemos da primeira vez que a visitámos.
Parecia ter terminado e ajudou a D.Maria a sentar-se pois até então tinha estado a tentar acompanhá-lo maravilhada como no primeiro dia.
Sentou-se depois num sofá à sua frente. Conversavam alegremente como sempre… é como um ritual nosso: visitamos os idosos; fornecemos-lhes tudo o que precisam e sentamo-nos a conversar com eles até quando todos lhe apetecer.
-Oh panasca!
-Hum.
-Acorda! Que ‘tás aí a fazer especada?
- Deve estar cansadinha coitadinha - dizia a D.Maria com o seu afecto do costume.
Sorri.
-Não, estava ali a pensar e… perdi-me-
O Alex deu umas palmadinhas no sofá a sua beira em sinal para que me sentasse, e eu sentei-me como sempre.
-Vocês fazem um casalinho tão bonito! - dizia a D.Maria deliciada pela centésima vez.
-Pois fazemos - concordou o Alex colocando o seu braço por cima dos meus ombros e começava a afagar-me o cabelo.
Eu apenas sorria, parecia que naquele dia andava à procura de algo que me dissesse que o que nos tínhamos era amor, ouvir a D.Maria dizer aquilo de nos de todas as vezes que a visitávamos talvez fosse mais um sinal de que realmente nos amávamos. Mas porque é que eu estava com aquela paranóia? Namorávamos há sete anos, desde que nos conhecemos na secundária…
-Quando é que vão juntar os trapinhos? - perguntou.
-Já juntamos - dizia despreocupada - já vivemos juntos desde o primeiro ano de universidade Micas, pensei que já lho tivéssemos contado.
O Alex voltou a mexer no cabelo como na entrada.
A D.Maria tossiu.
-Eu referia-me ao casório…
Eu que da banca tinha trazido um copo de água e estava a saboreá-lo repousadamente, logo que a D.Maria proferiu “casório” engasguei-me.
Tossi e respondi esganiçada:
- Temos muito tempo para pensar nisso.
A D.Maria abanou a cabeça em sinal de desaprovação.
-Ele quer - apontado com o queixo para o Alex.
“Ele!?” olhei para o Alex e ele continuava a mexer nervosamente no cabelo.
-Ele? - rim-me - não D.Maria! Nós falamos sobre tudo, se ele quisesse casar já teríamos falado sobre isso.
Olha para ele esperando um sinal dele que aprovasse e comprovasse o que eu tinha acabado de dizer, mas ele continuava impávido olhando a D.Maria e a mexer no cabelo no seu tique nervoso.
A D.Maria voltou a abanar a cabeça.
-Tu achas rapariga, que um rapaz, quando quer pedir uma moça em casamento que lhe fala sobre isso antes?
Eu limitava-me a sorrir. Querendo mudar de conversa, já que daquela eu não estava a entender nada.
- D.Maria eu tenho é algo para lhe dar! - disse enquanto me levantava para ir buscar a prenda à mala.
Logo que disse isto o seu semblante mostrou que ficou um pouco preocupada e vi o Alex levantar-se atrás de mim preocupado também.
-Pois temos D.Maria - e ao passar para mim sussurrou:
“Não tínhamos combinado que seria eu a entrega-la?”
Ele encaminhou-se para a mala e eu segui-o.
-Sim, tínhamos, mas pensei que não ias sair do teu transe hoje.
-Eu só estava a ouvir o que a D.Maria dizia!
-Pois, eu também ouvi bem o que ela disse e…
E antes que eu acabasse já ele me tinha virado as costas.
-D.Maria aqui está para si.
Pus-me a trás dele a sorrir para a D.Maria e preparei-me para o pequeno discurso, ele ajoelhou-se e ia abrir a caixa quando se vira para mim:
- Emilia, queres juntar os trapinhos comigo?
Abriu a caixa e tinha um anel de noivado…”
-A D.Maria sorria atrás dele e a Emilia disse que sim.
-Que bonito! - dizia entusiasmada- Mãe!
-Sim.
-Como é que a senhora se chamava mesmo?
-Maria.
-Há! Que giro! Tem o mesmo nome que eu viste pai?
-Pois tinha - respondeu a sorrir e puxou os cobertores mais para o seu pescoço. - Agora dorme.
Saímos do quarto, olhou uma última vez para ela e apagou a luz.
Pegou na minha mão e sorria como naquele dia.

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