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Como se prova?

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Como se prova?

Voz aos Escritores

2022-09-16 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Como se prova um vinho? Nunca fui grande especialista, mas consigo distinguir o bom do mau vinho. Falta-me, com toda a certeza, a base, a valoração do ambiente, os truques dos profissionais, que conhecem as cores, os aromas, que balançam os copos em movimentos síncronos, tudo para libertar eflúvios. E depois, o ato de cheirar, de preparar o nariz para a curvatura do copo, o enrolar do vinho contra o palato conhecedor…
Provar com sapiência um vinho requer dotes de escanção. Que eu não tenho, claro, mas que Pessoa tinha quando dedilhava rimas ao som da guitarra lisboeta: " Dá-me mais vinho, porque a vida é nada".
Não se prova vinho como se prova um bacalhau à Braga, as técnicas são diferentes, os cheiros e as texturas também, as papilas gustativas e os dentes agem de formas diferentes, mas a verdade é que o verbo é o mesmo e torce o nariz às minhas indagações.

Segundo reza a lenda, Pessoa gostava de bacalhau lascado, assadinho na brasa, com batata, azeite e alho, e amaria o do Vítor de S. João de Rei, que não é à Braga, mas é à Vítor, do melhor que se come em Portugal. Ao comê-lo, provou o poeta ser um belíssimo garfo, que isto de metáforas autoriza esta construção.
E provou, simplesmente, com o argumento de comer. Se tivesse, no entanto, de provar um teorema, o número de argumentos subiria em flecha, porque, neste sentido, não bastariam nem o nariz nem o palato, antes se relevaria, e em altíssimo nível, a supina inteligência. Foi com esta especial inteligência que, como bem sabemos, Einstein andou lá pelos buracos negros e descobriu a teoria da relatividade.
Aqui ao meu lado, a minha Micas, ouvindo-me falar em provas, pôs a mão na cabeça e disse "ai que me esqueci de provar o vestido".

Até pensei que ia falar em bacalhau, mas não, aqui o verbo provar anda por outros quelhos semânticos, e não quer cheiros nem sabores para nada. Bastam formas e medidas e a coisa está feita, o que nem é bem verdade, porque as mulheres demoram sempre a decidir os «finalmente».
Prova-se, no entanto, que isto de provar tem que se lhe diga, pois ninguém mastiga vestidos ou bebe cintas.
Quem vai ter de provar a sua inocência é a dona Quinhas, modista renomada cá do nosso bairro. E digo isto porque a Micas, em altos berros, acaba de repetir "XL?
Ó dona Quinhas, a senhora enganou-se, acha mesmo que estou assim tão gorda?". Não sei que justificações irá encontrar, mas o dia de amanhã não se antevê muito fácil para a coitada.
Ou muito me engano, ou a Micas, ou a Quinhas, vão provar uma dor bem lancinante. Eu já senti algumas destas, sentem-se no coração, ou na alma, e são muito difíceis de digerir.
E pronto, o que eu queria provar está provado: que este verbo "provar" é um bom malandro e se mete em lugares semânticos mais que multifários.

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