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Comunicar em tempo de crise

A saia comprida

Comunicar em tempo de crise

Ideias

2020-03-27 às 06h00

Carlos Alberto Cardoso Carlos Alberto Cardoso

Vivemos em tempo de crise e, nestes instantes, o ser humano curva-se sobre si mesmo, melhor dizendo, vira-se para o seu próprio umbigo. É natural, é humano, é a lei da sobrevivência! Porém, tal postura é terrível para a comunicação, pois este comportamento diminui, logo à partida, a capacidade de comunicação com o outro. Além disso, a situação em que nos encontramos de isolamento e afastamento social, é propícia ao crescimento de ruídos e rumores. No âmbito das instituições - sejam elas políticas, sociais ou económicas - e porque elas são feitas por homens e mulheres, também existe esta tendência, o que muitas vezes amplia ainda mais a crise e os problemas.

O ser humano é assim, quando está em sofrimento, fica quase sempre cego, surdo e mudo perante o mundo que o rodeia. Mas o mundo em que vivemos é cada vez mais corporativo, estamos cada vez mais ligados e precisamos cada vez mais de ordem global.
Os Gabinetes de Crise dos Municípios, por exemplo, deviam ser globais a nível do território, pois perante um problema global, a resposta também ela terá de ser global. Contudo, não é isto que está a acontecer! Perante uma crise de pandemia quase bíblica que estamos a atravessar, cada Município tem comunicado e agido individualmente, quando deviam agir em Comunidades Intermunicipais, por exemplo. A racionalidade em muitos casos não acompanha a decisão e todos estão a querer ser líderes dos seus umbigos.

Em comunicação de crise, a regra é simples: a comunicação, seja na forma como no conteúdo, tem de ser sempre clara, especifica e direta. Saber comunicar é uma qualidade rara e necessária à sobrevivência dos seres humanos.
O que eu lamento é ver as autarquias a produzirem comunicação ao segundo sobre ações do instante, onde o adversário parece ser tudo menos o Covid19. A competição entre autarquias e autarquias vizinhas é visível e merece reflexão. É necessária uma coordenação mais alargada, supramunicipal, de forma a uniformizar as ações e, sobretudo, a promover uma comunicação clara, coerente e eficiente. A democracia precisa de equilíbrios e de cooperação. Este é o momento certo para se mostrar a força da nossa democracia! Mais do que nunca, em momentos de crise, precisamos de estar todos unidos.
Basta aceder a uma rede social para perceber como os posts se atropelam uns aos outros, repletos de informação nova, pouco clara e carregada de opinião, como se o tempo de atenção fosse ilimitado. Perdemo-nos entre imagens, sons e palavras, e continuamos cegos, surdos e mudos.

Fiquei satisfeito ao ver ontem num canal de televisão noticioso um estudo que mostrava que os portugueses, maioritariamente, estão informadas sobre o coronavírus - mais de 80%. No que respeita à confiança relativamente à fonte de informação, 91% confia na televisão, 55% na imprensa escrita, 28% nas redes sociais e 85% têm como fiáveis os amigos e familiares. Estes dados são muito curiosos, porque quando todos estão preocupados e centrados nas redes sociais, os cidadãos mostram que entendem a confusão de informação que circula nos social media e demonstram uma clara preferência por meios de confiança, como um familiar ou a televisão de sempre.

Com a chegada das novas tecnologias, verificou-se o acesso massivo a toda a informação, ao mesmo tempo e em todo o mundo. Isto, em tempos de crise, obriga a uma gestão e coordenação globais. É preciso evitar as falsas notícias; os rumores, que de tanto circularem passam a “factos” e não o são; e a confusão entre o que é informação e o que é opinião.
Mais uma vez, a regra é simples: na comunicação, uma forma comum, para um conteúdo comum ajuda à sua compreensão e aumenta os graus de confiança.

Numa sondagem publicada esta semana, pela primeira vez, o Primeiro-Ministro António Costa surge à frente do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, na preferência dos portugueses. E isto, talvez, porque Costa usa sempre – e bem - a mesma forma, o mesmo conteúdo e repete-o vezes sem conta.

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