Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Condenados... ao entendimento

Sinais de pontuação

Ideias

2012-09-18 às 06h00

Jorge Cruz

Num comunicado divulgado há dias, os membros eleitos na lista de António Braga para a Comissão Política do PS de Braga defenderam a realização de uma sondagem para escolher o candidato do partido às eleições autárquicas do próximo ano.

Aparentemente, a posição destes socialistas é coincidente com a orientação traçada pelo presidente da Comissão Política, que já anunciou há meses que a metodologia de escolha do próximo candidato à câmara passará justamente pela realização de estudos de opinião.

Esta coincidência de métodos pode criar a ilusão de que os socialistas de Braga estão (agora) imbuídos de um espírito de solidariedade e unidade que os faz falar a uma só voz. Nada mais errado. Neste caso concreto, o único ponto de contacto entre os eleitos das duas candidaturas é precisamente a forma. O conteúdo será outra história, claramente menos pacífica.

Desde logo há, por parte de António Braga e seus apoiantes, a “exigência” de entregar a condução do processo à direcção nacional do partido, o que, convenhamos, denota uma indisfarçável e inadmissível desconfiança relativamente aos órgãos locais e um entendimento muito enviesado das regras democráticas.

Para além da questão nuclear da suspeição, de que a tentativa de ultrapassar a secção é o exemplo mais recente, esta posição configura a defesa de uma clara redução da qualidade de desempenho da democracia.

Creio que este caminho não conduz à necessária unidade em torno de um projecto ganhador, um projecto suficientemente atractivo, suficientemente mobilizador que permita manter a gestão do município de Braga nas mãos socialistas. É disso que se trata porque - convém recordar - quem tem que fazer o “assalto” ao poder é a oposição, não o PS, que conquistou e mantém a governação há muitos anos.

Não será, pois, com a manutenção de um clima de suspeição permanente, tantas vezes propositadamente alimentado, que o PS ganhará a robustez de que carece para se apresentar ao eleitorado unido e com as melhores propostas.

Esta deriva, que aliás tinha sido iniciada antes das eleições para a comissão política com a conivência de António Braga e o envolvimento de algumas figuras históricas, pelos vistos ganhou raízes e está para durar. Quem lucra verdadeiramente com este tipo de comportamento é a oposição que assiste de palanque a estas tricas e certamente vai guardando todo o material que lhe tem sido irresponsavelmente facultado para engrossar o argumentário que utilizará na campanha eleitoral.

O princípio geral enunciado no comunicado de que “todos os militantes com maior responsabilidade devem estar disponíveis para, respeitando as circunstâncias, desempenhar um papel útil ao Partido e à população de Braga” é uma verdade de la Palice que só peca por elitista. Então só “os militantes com maior responsabilidade”? E os outros, são de segunda?
Mas o que verdadeiramente choca é a afirmação (ou denúncia?) de que “há hoje novas e politicamente-muito-relevantes informações que condicionam diferentemente a indicação de nomes”, o que parece apontar para a exclusão de um dos protocandidatos. Mas afinal em que regime e em que país vivemos?

A defesa dos valores democráticos tem de ser uma prioridade de todos os que prezam a liberdade, a tolerância e o pluralismo e sabe-se que isso não é compaginável com insinuações, com boatos, enfim, com campanhas negras como a que aparentemente está em marcha.
Felizmente vivemos num regime em que a presunção de inocência é um direito inalienável de qualquer cidadão. Movemo-nos num regime em que só há condenações depois do trânsito em julgado das sentenças proferidas pelo competente tribunal.

António Braga sabe isso muito bem, até porque ele próprio também já foi vítima de insinuações e acusações graves, por parte de um antigo cabeça de lista do PS pelo círculo Fora da Europa. Nessa altura, em véspera de eleições legislativas, o então secretário de Estado das Comunidades foi publicamente acusado de negociar cargos públicos com um empresário português residente no Brasil em troca de financiamento partidário.

Surpreende, por isso, que já tenha esquecido aquilo por que passou, e que certamente lhe causou enorme incomodidade pessoal e política, para permitir agora que se alimente uma suspeição e assim se contribua para lançar um anátema sobre um adversário político que, antes disso, é um ser humano com família e um camarada de partido.

À política o que é da política e à justiça o que é da justiça parece-me a metodologia mais adequada. Foi assim no caso das gravíssimas acusações a António Braga, esperemos que também o seja agora, no caso do presidente do PS bracarense. Convém não misturar as coisas, por muito jeito que isso possa dar a alguns. Até porque os socialistas de Braga estão condenados, sim, mas a entenderem-se pois só dessa forma, só construindo a unidade em torno de um projecto político mobilizador é que terão possibilidades de manter a liderança do município.

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