Correio do Minho

Braga,

Contra a violência doméstica. A confusão de Adão no Jardim do Éden, por Victor Sá

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2010-08-29 às 06h00

Escritor

A Àrvore da Vida, é o mundo no qual eu vivo, o Éden. A vida, é a sua sabedoria em todo o seu esplendor. A criação de todas as coisas.

A árvore da vida, dá todos os frutos que actualmente conheço, todas as cores e todos os nomes, frutos sumarentos que me tentam com a sua beleza e colorido, vestidos com uma pele sensual e refrescos intoxicantes, o Jardim da Árvore.

Eu sei o que fiz de errado, foi não ter compreendido que todos os frutos da árvore, são os seus próprios rebentos, os seus próprios filhos que por ela são criados. O meu erro foi não compreender que a árvore da vida é o mundo no qual eu vivo, e os seus frutos, são todas as pessoas.

Se a árvore da vida fosse uma macieira, o meu erro foi não compreender que também eu era uma maça.

Deus, o criador desta árvore, criou também ele a árvore do conhecimento, o conhecimento de todas as coisas, para que se possa distinguir tudo de bom, e também tudo o que é menos bom.

Eu sei o que fiz de errado. Não foi tanto ter abandonado os meus valores morais por uma incompreensão do conhecimento, tentador e irresistível.
Foi mais uma presunção errada do que eu era realmente comparada com aquele fruto tão irresistível, tão belo e colorido, pensando também que continuaria assim tão bela como era antes, ligada à árvore. Uma incompreensão do conhecimento que não me deixou ver que afinal aquele fruto também era eu, tentando-me a mim próprio com a beleza do meu corpo e todo o meu colorido.

Por isso naquele dia fatídico retirei-me do Jardim do Éden, tão zangado comigo mesmo por ter retirado de mim toda a beleza e colorido que Deus me tinha dado. Por isso pequei por me tentar a mim mesmo e ao meu semelhante, que são todos os frutos desta grande árvore da vida.

Agora que eu não estava ligado a este Jardim do Éden, perdi toda a minha beleza e colorido, perdi aquele aspecto sumarento, irresistível e tentador, ficando assim com um pequeno fragmento minúsculo deste grande Puzzle que é a árvore do conhecimento.

Depois de me retirar do Jardim do Éden, olhei ao longe para a árvore que é o nosso mundo, e reparei que ela própria tinha o saber, essa mesma sabedoria pela qual eu agora ansiava, e compreendi que percorri o Jardim em vão. Compreendi agora que ela poderia ter-me ensinado ao seu próprio ritmo de árvore a arte de observar, de apreciar o outro tal como olho e aprecio-me a mim mesmo. A árvore da vida, que é o nosso mundo, podia-me ter feito deslocar até ao mais alto do qual ela então me poderia mostrar o mistério do bom e do menos bom. O bom, era aquele fruto pelo qual eu não me relacionava, e o menos bom era na verdade eu próprio, porque fui tentado por uma beleza e colorido que nunca antes tinha reparado em mim, por isso pequei e retirei-me. Porque estava dividido naquilo que parecia oposto e que na realidade era um. Não o mesmo, perdão, mas um.

A árvore da vida, que é o nosso mundo, queria que eu fosse até ela, não para a pilhar a beleza e o colorido do Jardim, que é a Mulher e ao mesmo tempo todas as pessoas, como se fosse um ladrão e depois virar costas enquanto me satisfazia ao alimentar a minha luxúria e egoísmo.

Mas eu fiquei fraco. Permiti que a beleza exterior de todas as pessoas me cegasse e não visse a beleza interior de cada uma delas. No fim o presente que Deus me queria oferecer, era o Jardim, a Mulher, era realmente partilhar comigo todas aquelas pessoas, um partilhar que ficou suspenso a flutuar no vento, um ramo partido, um coração magoado, o gesto de boas vindas ao qual eu falhei em corresponder na mesma medida.

E então, em vez de vir com uma consciência, com a tão ansiada claridade a cerca da unidade, da verdadeira e profunda união espiritual que é a árvore do conhecimento, eu vim com confusão, tormentos, cegueira e escuridão.
Nada é tão claro como poderia ter sido, como deveria ter sido, ter uma tomada de conhecimento daquela grande árvore. A árvore do conhecimento, é a árvore da verdade, da sabedoria e da inteligência que nos faz saber distinguir o bom, e do menos bom. A consciência do bem e do mal.

Eu sei o que fiz de errado. Não foi tanto ter abandonado os meus valores morais, foi ter-me separado a mim próprio da árvore da vida, fiz um corte com a raiz da minha alma. Castigando-me quando tinha sido sempre eu e mais ninguém que, pelo meu acto e confusão, não soube distinguir que afinal o colorido das pessoas é a imagem externa delas próprias e, a beleza é o seu interior, a Mulher.

Esta é a minha confissão. Eu quero mesmo que tu a ouças, que tu a sintas.
Quero que tu olhes para as pessoas na tua vida quando ainda estão unidas nesta árvore, no lugar do teu coração que conhece a união que elas partilham com a tua essência. Eu quero que tu desistas da poderosa tentação de cortá-las da árvore que é a vida cujas raízes ambas partilham, essa imperiosa vontade de as possuir, de as recriar à tua imagem, de as roubar do seu meio, de tudo o que elas são.
Deixa-as ficar nesta árvore que não é nossa, não somos o dono dela. Foi aqui que as viste pela primeira vez, admiraste-as, apaixonaste-te por elas.
Então aqui, ligadas à árvore da vida, tu as conseguirás ver pelo que elas realmente são e apreciar o seu colorido e a sua beleza interior assim como a sua beleza exterior. Apenas aqui nesta grande árvore poderás encontrá-las completas e não só como uma parte do todo que elas são.
Observa o fruto, a Mulher, as pessoas enquanto fazem parte do todo, e o resto, as folhas, os ramos, o tronco e a raiz desta grande árvore não separes nada um do outro. Deixa-os como os encontraste. Queres mudar o mundo? Este é o teu grande passo.

Quanto a mim, há esperança e há cura. Ao partilhar o meu coração contigo e com todas as pessoas, ao contar-te a minha história, ao proclamar a minha verdade, eu curo-me. Eu curo-me com cada palavra, com cada tomada de consciência sobre o que aconteceu lá, com o Jardim do Éden, com aquela grande árvore.
Afinal de contas, Deus nunca me perguntou pela Mulher porque ela sempre existiu mesmo antes de eu chegar, mas perguntou-me sim pelo colorido e pela beleza da Grande Árvore, a mulher que é o nosso mundo. É cada um de nós, o exterior do que somos e a beleza interior do nosso coração.

*Dedico a todas as Mulheres que foram vítimas de violência doméstica.





Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.