Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Conversa com o passado

Um convite da Comissão Europeia para quem gosta de línguas

Conta o Leitor

2014-08-08 às 06h00

Escritor

Liliana Pinheiro Gonçalves

Aquela cadeira contou os dias em que, para meu arrependimento, não me tinha ali sentado.
Pressentindo a minha presença, ele, que estava a apreciar a paisagem, vira-se e sorri.
- Avô - disse, mostrando também um sorriso.
Levantei-me e fui ajudá-lo a voltar para dentro e a sentar-se na sua poltrona.
Nunca nos cumprimentamos na vida, nunca fomos “dessa” proximidade.
Voltei a sentar-me.
Esperamos no silêncio. E ele sorria.
- Vieste falar com o passado? - perguntou.
Ri-me.
- Estava ali a ver as vistas. - com dificuldade, apontou para a janela aberta.
-Bonito, não?
Era só aquilo que conseguia dizer.
- Sabes, - começou - as pessoas agora não sabem sentir e apreciar o que vêem. Preocupam-se em tirar fotografias, ostentar algo que nem viveram totalmente devido a essa “necessidade”.
- Tem razão. Será da velhice?
Riu-se.
- Não, eu sempre fui muito boss.
Ri-me como nunca antes. A cada dia que passava, o seu humor mais refinado se tornava. Ele ria-se comigo numa harmonia que fazia lembrar a infância e tardes de sol.
- Mas tem toda a razão avô, se bem que eu aprecio bastante a fotografia. E, falando no meu caso, eu faço isso para deixar um tipo de cartão de apresentação, identificação ou visita, pela internet… aos interessados ou possíveis interessados.
Ele ouvia-me atento.
- Sabe que hoje em dia tudo é diferente sim, tal como disse, a ostentação está por toda a parte… mas também houve mudança no sentido em que não podemos conviver na rua como antes, livres, conhecer o pessoal, brincar. Mal saio de casa, reparo na juventude a andar por aí, a sair à noite e nas farras… Uma pessoa que necessita de se relacionar com outras… por vezes esta é a única forma de criar laços ou conhecer as nossas metades…
- Tens razão. - finalizou.
- O avô tem mais.
Esfregou a cabeça.
- Afinal, por que estás aqui, hoje?
Sorri envergonhada.
- Eu sei que trabalhas hoje. Que estás aqui a fazer?
Ele percebia que algo mudou.
- Estou de férias avô - menti.
- É para acreditar?
- É.
Acenou, consentindo.
Sentia-o a ler a minha mente, sem precisar de ler a minha alma pois sabia-a de cor.
- Não trazes prenda, ou tão só um chocolate. És a pior visita que cá vem, e és a que passa cá mais tempo, olha a minha sorte.
Ri-me com um travo de tristeza por entre o sorriso descaído.
Deixei-me calada com medo de que mais alguma mentira me saísse pela boca e assim ele não fosse acreditar na derradeira.
- Não te sintas mal…
Olhei para ele, confusa.
Continuou:
- Não te sintas mal pelos dias que não pudeste cá vir. Vislumbro, nesse teu coraçãozinho, essa dor.
- Não pode fazer isso avô, pare de me ler! - disse aborrecida.
- Cala-te - ordenou - não importam os dias que não estiveste, agora, no final.
A forma como dizia ‘final’ atingiu-me, que nem um chicote. Era realmente o fim, e ele sabia.
- Porque o que interessa foram todos aqueles dias em que estiveste comigo, quando estava tudo bem - faltava-lhe a voz, mas continuava - porque no final, quando está tudo mal, as pessoas passam por aqui, tchii, tantas, algumas nem as conheço.
As suas palavras paralisavam-me, e ele intacto, continuava a perscrutar-me até à última gota.
- Nunca te sintas mal por todas aquelas vezes que esperavas à porta porque precisavas de dinheiro.
Eu já não conseguia conter as lágrimas. Eu não tinha vindo conversar com o passado, mas ele sabia que eu ia realmente ter de ouvir essa conversa.
- Porque todas essas vezes, tu contavas-me - e citou-me - “A comida na universidade não presta”, “A mãe faz anos”, “Eu quero mesmo sair à noite hoje, acho que há um rapaz”…
Chorava compulsivamente.
- Não te sintas mal por isso! Porque nunca me mentiste! E isso aquecia-me o coração. Agora aqueles que nunca estiveram à espera na minha porta por dinheiro, estão agora à espera às portas da minha morte.
Ele continuava imperturbável.
- Eu sei que tu estás nessa altura da juventude em que tudo parece o fim do mundo… não é.
E de cada vez que ele falava no ‘fim’ carregava na ferida.
- Já não acreditas no amor, na amizade, nas pessoas. Mas acredita, existe sempre alguém.
Abanei a cabeça.
-Uns morrem, outros nascem!
Levantei-me bruscamente.
- Não! Chega, não é esse o discurso!
Ele riu-se da minha tentativa de tentar fazer daquela mentira verdade.
- Eu não te podia deixar assim, a pensar que os gatinhos tinham realmente morrido naquele dia.
A história dos gatinhos, ele evocou a história dos gatinhos, e ali se previa o fim daquela conversa com o passado.
- Exatamente, eles não morreram.
Comecei a pegar nas minhas coisas.
- Sabe, tem razão, eu trabalho hoje e já estou atrasada!
- Não quero que vás aborrecida.
- Não estou avô - e encenei o meu melhor sorriso.
Na verdade não estava, estava apenas derrotada.
E ali permaneci firme, à porta, não esperava dinheiro, mas a pergunta de sempre.
- Devo dizer adeus? - perguntou, continuando a sorrir como se já do céu enviasse uma mensagem.
- Não, deve fazer a pergunta.
«Ah, ok», arranjou o casaco e fazendo o ar de sempre, pintando os olhos de esperança falsa…
- Quanto tempo tenho?
Engoli em seco, e como se de um “amo-te” se tratasse, despejei a rotina:
-Tem uma vida inteira.
Olhei uma última vez, virei costas. A porta fechou-se.
Os gatos não morreram nesse dia, disse ele.

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