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Convertidas – A Solenidade do Mês de Maria (1913)

Geraldo Henriques

Convertidas – A Solenidade do Mês de Maria (1913)

Escreve quem sabe

2020-05-27 às 06h00

Elisa Lessa Elisa Lessa

A ideia de um mês dedicado especificamente a Maria remonta ao século XVII. Na antiga Grécia, o mês de Maio era dedicado a Artemisa, deusa da fecundidade, e na antiga Roma, o mês de Maio era dedicado a Flora, deusa da vegetação. Na Idade Média, o primeiro dia de Maio era considerado o auge da Primavera, com celebrações em honra do clima ameno. Apesar de nem sempre ter sido celebrado em Maio, o Mês de Maria, a partir de meados do século XIX, incluía trinta exercícios espirituais diários com devoções especiais organizadas cada dia, perdurando esta prática nos tempos hodiernos, ainda que de modos diferentes. A piedade mariana, de grande impacto popular e de devoção para-litúrgica, contou sempre com a participação dos leigos e com a beleza da música através dos cânticos dedicados à Senhora. Assim acontecia no recolhimento de Santa Maria Madalena, fundado em 1720 pelo arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles (1704-1728), com a finalidade de converter mulheres através da oração, da penitência e do trabalho (Araújo, 2017:19), sendo esta tradição realizada com muita solenidade. O jornal Echos do Minho, relativo ao ano de 1913, noticiou por duas vezes a celebração praticada no final do Mês de Maria nesta instituição. A 2 de Junho, Echos do Minho anunciou a celebração para o dia seguinte com o respectivo programa:

7 h - Missa rezada / alocução pelo Pe. Manuel Araújo da Paróquia da Cividade.
11h - Exposição do Santíssimo. Missa cantada pelo Reverendo Miranda Oliveira.
16.30h - Terço com cânticos. Sermão pelo Rev. José Ribeiro Braga. Ladainha e Benção Eucarística.

O jornal informou ainda que no final seria cantado o cântico Adeus à Virgem pelo grupo de senhoras que durante o mês integrou o coro destas celebrações. O acompanhamento pelo órgão estaria a cargo da Sra. D. Maria Moura dedilhando mimosas composições.
Passados três dias, o Echos do Minho informou os seus leitores sobre as cerimónias realizadas, anotando que (…) esteve esplendida a solemnidade de conclusão dos piedosos exercícios do Mez de Maria na capellinha do Recolhimento das Convertidas no Campo de Santa Ana, exercícios frequentados pelas damas da nossa melhor sociedade. O texto refere o nome de dez senhoras que formaram o grupo coral acompanhado pela organista já mencionada, Sra D. Maria da Conceição Azevedo Moura e que nessa ocasião foi oferecida uma riquíssima toalha para o altar da capela com pinturas muito mimosas e apreciadas feitas pela própria doadora, D. Ana Valladares.

A recitação do terço e os cânticos em honra de Nossa Senhora são uma devoção de religiosidade de grande tradição lusitana. Os sacerdotes músicos da chamada Escola de Música Sacra Bracarense, desde o Pe. Manuel Carvalho Alaio (1888-1973), Pe. Faria Borda (1914-1992), Pe. Benjamim Salgado (1916-1978) Pe. Manuel Rodrigues de Azevedo (1915-1988), Pe. Manuel Faria (1916-1983) e Joaquim dos Santos (1936-2008) são apenas alguns dos compositores que escreveram cânticos singelos para o mês de Maria. Florinhas do campo (1948) do Pe. Manuel Faria e Adeus: Cântico para o fim de Maio (1951) do Pe. Manuel Faria Borda, ou Senhora do Mês de Maio (1956) de Joaquim dos Santos disso são exemplo.



Notas:
Por opção da autora o texto está escrito segundo a norma ortográfica da Língua Portuguesa anterior ao Novo Acordo Ortográfico.

Coelho Dias, Geraldo (2019) “A Devoção do Povo Português a Nossa Senhora nos tempos Modernos”. Revista da Faculdade de Letras. Universidade do Porto, pp. 227-253.
Lobo, Marta (2017) Oração, penitência e trabalho. O Recolhimento de Santa Maria Madalena e São Gonçalo de Braga (1720-1834). V. N. Famalicão: Edições Húmus.

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