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Correntes de esperança no panorama cultural

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Correntes de esperança no panorama cultural

Ideias

2021-02-23 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

É já esta semana, nos dias 26 e 27, que as ‘Correntes d'Escritas’ regressam à Póvoa de Varzim, este ano num formato completamente distinto, ou seja, com uma configuração adaptada aos condicionalismos do confinamento imposto pela situação epidemiológica que o país atravessa.
Na realidade, as provações que os tempos que vivemos impõem forçaram os organizadores, a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, a repensar o figurino desta 22.ª edição do Encontro de Escritores de Expressão Ibérica. Dessa reflexão, saiu a opção por um novo formato, inédito, que reduziu o evento a apenas dois dias, num regime não presencial, mas apenas via online, ou seja, através da internet. Mesmo assim, ressalta desde logo um aspecto que reúne todo o mérito para ser relevado - o certame não sofrerá qualquer interrupção, como aconteceu com outros, e continuará a convocar um alargado e prestigiado leque de participantes, mais de 150, sendo certo que, desses, mais de uma centena serão escritores.
Creio que esta postura de perseverança, de recusa do comodismo que a desistência representaria, constitui a primeira nota positiva que ficará a crédito de uma organização que, ao longo dos anos, sempre nos habituou a recusar qualquer tipo de cedência. Foi, aliás, essa atitude de grande profissionalismo e de gigantesca dedicação à cultura que, aliada a uma enorme dose de bairrismo, conseguiu alcandorar este festival poveiro a uma posição ímpar no parco panorama cultural nacional.
E esta dimensão é tanto mais relevante quanto é certo que acontece, não propriamente em contraciclo, mas numa altura extremamente difícil para a Cultura, em geral, e para o sector livreiro, em particular.
Recorde-se, a propósito, que ainda há dias um largo conjunto de personalidades e estruturas artísticas subscreveram uma carta aberta dirigida ao primeiro-ministro na qual criticam a ausência de propostas de investimento do Governo, na Cultura, no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a apresentar em Bruxelas. A missiva acentua a não existência de "qualquer proposta relativa ao investimento na Cultura", e lembra o "crónico subfinanciamento, precariedade e falta de investimento estrutural" no sector. Faz notar também "a conhecida assimetria no acesso aos bens culturais e às infraestruturas entre as diferentes regiões do país", o que provoca "fragilidades históricas", que "serão agravadas, e a recuperação e resiliência deste setor estão ameaçadas".
A resposta de António Costa foi pronta, mas pouco tranquilizadora, já que apenas refere que o projecto do PRR ainda pode beneficiar de novas propostas, embora sublinhando que o Plano “tem um curtíssimo prazo de execução, até 2026, e só apoia reformas e investimentos que acelerem a dupla transição climática e digital ou reforcem a resiliência”.
Mas voltando à actividade livreira, também ela a ser fortemente penalizada, não nos podemos esquecer que os condicionalismos sanitários impuseram que as livrarias fossem impedidas de vender… livros, enquanto se facultava aos supermercados a possibilidade de os comercializar!
É verdade que o festival poveiro não vai proporcionar a venda directa de livros, mas, pelo menos, vai apoiar autores, editores e livreiros, uma vez que, ao contribuir para a promoção do livro e da leitura, está a concorrer para o aumento de leitores e, consequentemente e de uma forma indirecta, para a sua comercialização. Como a ministra da Cultura vai participar na conferência inaugural do evento, pode ser que tenhamos a felicidade de obter respostas para este caso caricato e, deve dizer-se, que corresponde a uma inadmissível situação objectiva de concorrência desleal.
Outro aspecto a merecer particular destaque prende-se com o facto de este festival literário ter decidido prestar uma justíssima homenagem a Luís Sepúlveda, colocando num plano central desta edição este escritor chileno que faleceu há menos de um ano, vítima de covid-19.
Assim sendo, os temas das diversas mesas do encontro terão por base afirmações e citações retiradas de obras de referência de Luís Sepúlveda.
Por outro lado, o vigésimo número da Revista Correntes d’Escritas é inteiramente dedicado ao consagrado autor, numa viagem de revisitação da sua vida nas suas diversas vertentes.
Como é sabido, além de escritor, Sepúlveda dispersou a sua actividade em áreas diferenciadas, entre as quais as de realizador e jornalista, embora a sua faceta de escritor tenha dominado grande parte da sua vida. Aliás, o facto de as suas obras estarem traduzidas em mais de 60 idiomas, e de terem vendido mais de 18 milhões de exemplares, são a demonstração quer da qualidade da sua escrita, quer do modo como a mesma ainda hoje é apreciada.
Seja-me, aliás, permitido recordar com particular emoção a sua passagem pela Feira do Livro de Braga, em Março de 2000, e o contacto que nessa altura estabeleceu com os seus inúmeros leitores desta região, bem como a sua assídua presença na congénere de Lisboa e em quase todas as edições das “Correntes d’Escritas”, a última das quais precisamente há um ano.

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