Correio do Minho

Braga, terça-feira

Corrida de táxi, por Ana Maria Monteiro

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2010-08-30 às 06h00

Escritor

António é um homem simples. Taxista desde sempre, há muito que poderia ter-se retirado. Mas não quer. Gosta desta vida. E além disso, no activo, sempre é mais algum dinheiro que vai entrando. Acumulado com a reforma, permite um bocadito mais de desafogo, não muito, que a vida está cara e o movimento já não é o que era.

A “crise”. Desde sempre que ouve falar em crise, mas nos últimos anos ela tem mesmo “mordido as canelas” de muito boa gente, incluindo as suas. Embora essas, sempre tenham sido magras e sem muito por onde roer. Mas não interessa, tem levado uma vida direitinha, sem grandes sobressaltos, e até conseguiu formar os dois filhos. Estão ambos bem, graças a Deus, embora longe, é certo.

Mas António é, como tantos colegas seus, uma espécie de filósofo do volante, sabe muito, ouve muito, vê muito. Pelo seu táxi já passou toda a espécie de gente, já conversou com muitas pessoas. Uma vez até transportou um Ministro. António nunca se esqueceu. E o Ministro conversou com ele e tudo. E no fim deu-lhe uma bela gratificação e disse-lhe que o país precisava era de mais homens como ele. Que dia! Memorável!

Hoje António está na praça de táxis do Parque das Nações, normalmente frequenta mais a da Aeroporto, mas calhou-lhe um serviço para aqui e deixa-se estar em amena cavaqueira com os colegas de sempre. O seu táxi já é o primeiro da fila e sabe que a qualquer momento irá ter um novo cliente, por isso está preparado.

Mal repara no casal que entra e se senta no banco de trás.
Ouve o destino e põe-se em marcha.
O casal segue calado e António depois de tentar por uma vez ou duas o seu sistema de abordagem preferido, as vias de acesso na capital de que “eles” todos falam mas nenhum quer resolver, nem ouvir os que lá andam e que saberiam muito bem que soluções adoptar; mas não tendo qualquer reacção por parte de nenhum dos elementos do casal, desiste de meter conversa. Está habituado, nem todos os clientes são dados ao diálogo. Ele é que gosta de ir falando por aqui e por ali com uns e com outros, mas respeita a vontade do cliente, claro.

A uma certa altura nota que os dois lá atrás se beijam. Mas como se beijam! E continuam. Já não são nada novos, nem um nem outro. Isto foge um bocado às regras. Se fossem jovens, António chamava-lhes a atenção que não quer cá dessas coisas no seu carro, mas assim… E eles continuam. É certo que não fazem mais nada, mas beijam-se como se o mundo fosse terminar já ali à frente. A certa altura, António pigarreia. A mulher apercebe-se. Ligeiramente alterada, endireita-se no banco e olha-o através do espelho retrovisor.

- Desculpe.
É tudo quanto diz. Numa voz doce e suave e de face um pouco ruborizada.
António não diz nada. Olha-a mas nem diz nada. O olhar daquela mulher, naquele momento, tem uma dimensão infinita. António sente nele as profundezas do mar e as vagas dos Oceanos. António nunca pensara que fosse possível ver o mar no olhar de uma mulher e muito menos numa mulher de olhos castanhos.

A viagem continua e chegam ao destino.
António cobra a viagem e prepara-se para regressar a Lisboa quando a mulher se lhe aproxima da janela e, colocando a mão sobre a beira do vidro, olha para ele (ainda aquele olhar marítimo) e diz:

- Desculpe. É que não nos víamos há trinta anos.
Pausa
- Obrigada e tenha um bom dia.
E depois mais nada.
O casal afasta-se. António fica preso duma estranha emoção. Aqueles dois desconhecidos, que história será a deles?

Não sabe. António pensava que já tinha visto e ouvido de tudo e que já nada o surpreenderia, mas houve qualquer coisa naqueles dois e no olhar daquela mulher…
Qualquer coisa indefinível. Uma sensação estranha, ele diria até que palpável.
O dia continua. António põe o assunto de lado, até porque acha que não tem nada a ver com isso e será mais uma das muitas histórias com que já se cruzou sem nada saber delas. E são tantas.

Seja como for, ao longo do dia, por vezes vem-lhe à memória as palavras da desconhecida. Apenas isso, já que não lhe fixou o rosto nem qualquer traço para além daquele olhar.
Hoje sai cedo, troca com o colega às 7 da tarde. Já raramente faz as noites, embora até aprecie a generalidade da clientela nocturna. Tirando a “gandulagem”, que esses, já se sabe, é só dores de cabeça e chatices, as pessoas à noite são diferentes: mais soltas, mais bem dispostas.

Chega a casa, toma o seu belo banho e janta com a mulher. A sua Mariana, companheira de toda uma vida. Ainda se lembra de como se conheceram e de muitos pormenores do seu tempo de namoro. Depois casaram-se. E foi o melhor que fizeram. Sempre se amaram, mas António acha que nunca pensou sequer no assunto. E para quê? Não há nada para pensar. A vida dá, uma pessoa aceita.

António é um homem simples, mas sempre foi um bom marido e amante sensível e dedicado. Ainda gostam de se ter nos braços um do outro, embora actualmente isso já não aconteça com a frequência que lhes agradaria.

Mas hoje. Hoje António sente-se diferente, mais animado e tem uma vontade de fazer amor com ela...
Mariana não faz rogada, de maneira nenhuma, também ela o ama desde sempre sem se atrapalhar a pensar nisso. António está revigorado, sente Mariana em todo o seu ser, ama-a profunda e entusiasticamente. Mariana, não lhe fica atrás, entrega-se-lhe toda também ela rejuvenescida pela intensidade dele. Há muito que não partilhavam uma noite de amor como esta.

Mais tarde, calmos, sossegados, corpos ainda suados, Mariana comenta:
- Meu Deus, homem! Que nos aconteceu hoje?
- Não sei mulher. Mas por momentos senti como seria se tivesse estado trinta anos sem te ver.

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