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Crise da Covid-19, ultraliberalismo e oportunidade de mudança

A paixão do moleiro de Amares

Crise da Covid-19, ultraliberalismo e oportunidade de mudança

Ideias

2020-03-28 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

O mundo de antes não é o mesmo mundo do depois do eclodir da pandemia da Covid-19. Até ao presente têm vindo a dominar à escala global o modelo capitalista ultraliberal com os seus mercados de bens e financeiro livre e desregulado, com o seu princípio de “Estado mínimo”, com a sua cada vez maior concentração de riqueza, com o seu constante aumento de desigualdade, pobreza e exclusão social. Ora, uma hipótese muito viável é que surja a mais ou menos trecho uma nova crise económica e financeira global resultante da pandemia da Covid-19. Aliás, o cenário de uma nova crise global era expectável mesmo antes do surgimento da atual pandemia da Covid-19, esta, claro, só vem piorar o cenário negativo previsto.

Porquê? Dado que as crises do sistema capitalista são recorrentes embora irregulares, tendo em tempos mais recentes atingido mesmo o seu topo com a crise global económica e financeira de 2007/2008. Esta, iniciada com a crise financeira dos empréstimos tóxicos “sub-prime” nos Estados Unidos e depois propagada à Europa e ao Resto do Mundo, resultou na adoção pelos governos nacionais e entidades supranacionais (caso da Zona Euro) de políticas económicas fortemente restritivas, de “austeridade excessiva”. Ao invés, assistiu-se a um apoio desmesurado ao sistema bancário e financeiro. Na verdade, o objetivo central das medidas tomadas e altamente penalizadoras da população (quebras de produção, elevação do desemprego, cortes de rendimentos e mais desigualdade, pobreza e exclusão social) foi sim a “salvação” do sistema capitalista ultraliberal.

Ora, nada se tendo alterado no substancial no modelo económico e social mundial após a crise de 2007/2008, então, uma nova crise global aconteceria mais cedo ou mais tarde. A pandemia da Covid-19 apenas acelerou o seu aparecimento (tornando-a ainda mais grave que a crise de 2007/2008!). E, como sempre os mais vulneráveis continuarão a ser os mais pobres e excluídos pelo sistema capitalista dominante. Para agravar este cenário há que contar ainda com a ascensão do populismo de extrema-direita (Trump, Bolsonaro e quejandos) e o seu ideário de retrocesso civilizacional, tais como: limitações à democracia política e defesa do “Estado mínimo”, das privatizações, do nacionalismo; do protecionismo; da xenofobia, da homofobia, do sexismo, do racismo e, mais grave ainda, neste momento dramático da pandemia da Covid-19 da deterioração da coordenação e cooperação internacional. Assim, com a pandemia da Covid-19 a instabilidade financeira e a especulação agravaram-se. Assim, tivemos recentemente uma baixa bolsista acentuada nas principais praças financeiras mundiais, por exemplo, a bolsa dos Estados-Unidos desvalorizou 40%. Com isso, aumentou a pressão de subida das taxas de juro nos mercados financeiros. Ora, essa subida das taxas de juro implica mais altos custos das emissões de títulos de empréstimos (obrigacionistas), logo, maior dívida das empresas e quebra acentuada do investimento privado.

O que fazer? No muito curto prazo é necessário que o Estado tome medidas de política económica e social visando atenuar o impacto da crise global que se avizinha: subsidiar as empresas produtivas que se encontrem em dificuldade defendendo o emprego; nacionalizar as empresas estratégicas; impedir a todo o custo os despedimentos, em particular no que se refere aos trabalhadores precários; mais e mais investimento público na saúde; controlo das rendas da habitação.

E quanto ao médio e longo prazo? Como a História testemunha no sistema capitalista as crises económicas sucedem-se de forna cíclica embora irregular. A crise é uma componente endógena e instável do processo produtivo capitalista ao gerar acumulação de capital excessiva e, em simultâneo, desvalorização do fator trabalho. Assim, a produção capitalista ao crescer engendra necessariamente crises de sobreprodução por insuficiência da procura agregada/global (por não acompanhamento de poder de compra pelos trabalhadores. Por fim, eis a seguinte passagem do economista mexicano de renome Alejandro Nadal no jornal La Jornada: “Vários analistas preveem com a crise da Covid-19 quebras de 2% a 3% do PIB mundial se a recessão se instala e se estende por mais tempo. Mas ninguém se deixe enganar neste contexto. Os temores que se vêm prognosticando estão presentes desde há meses e os remédios que supostamente estavam desenhados para aplacar a dor intensificaram-no”.

Concluindo, face à crise económica e financeira global que se avizinha a adoção mais uma vez de medidas de política económica de “austeridade excessiva” nada mais será do que continuar a adiar a resolução do problema substancial que é qual o novo modelo económico e social que pretendemos. Esta é uma nova oportunidade a não desperdiçar. É preciso refletir. Eis algumas ideias: mais democracia participativa; mais regulação dos mercados; maior intervencionismo do Estado, por exemplo, em áreas estratégicas, como educação, saúde e habitação; menos individualismo e mais humanismo; mais sentido social e cooperativo e menos procura por lucro, menos consumismo e mais cultura e lazer; mais respeito pela natureza e ambiente.

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