Correio do Minho

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Críticas não se calam com arrogância

Decisões que marcam

Críticas não se calam com arrogância

Ideias

2020-09-08 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Se a entrevista que Ricardo Rio concedeu a semana passada à RUM se destinava a acalmar as hostes que lhe têm servido de apoio eleitoral, agora que falta cerca de um ano para as próximas eleições, o mínimo que se poderá dizer é que a operação se saldou por um rotundo fracasso. E foi um autêntico fiasco porque o líder da coligação que governa o município há quase sete anos não conseguiu explicar convincentemente aos bracarenses, nem sequer a muitos dos seus apoiantes, os motivos pelos quais ainda não cumpriu compromissos eleitorais, alguns dos quais a arrastar-se desde a campanha que antecedeu o início do primeiro mandato.
Creio, portanto, que desse ponto de vista a conversa com a jornalista Elsa Moura acabou por se transformar num momento deveras pesaroso para Ricardo Rio, um momento que pôs uma vez mais a nu as enormes fragilidades do autarca que a maioria dos munícipes já considerou ser capaz de gerir os destinos da terceira cidade portuguesa.
Algumas das questões que lhe foram colocadas apenas obtiveram respostas imprecisas ou mais ou menos evasivas e por vezes sem grande correspondência com a verdade.

Principiando, por exemplo, pela questão do licenciamento das novas superfícies comerciais nas imediações do já de si complicado Nó de Infias, o presidente da Câmara afirmou que impedir essas construções “teria um custo incomportável” para o município, mas não esclareceu se os proprietários dos terrenos dispunham ou não de algum Pedido de Informação Prévia (PIP) que lhes garantisse o direito de construção daqueles equipamentos. Mais surpreendente – e grave – é o facto de Ricardo Rio ter desvalorizado a probabilidade de as novas superfícies comerciais provocarem um aumento do trânsito automóvel, ousando inclusive comparar esta zona crítica com a rua 25 de Abril, onde em tempos também permitiu a instalação de um supermercado, o qual, segundo disse, não aumentou a afluência automóvel. Ou seja, ao fazer semelhante comparação, ao apontar o exemplo do que se terá passado numa artéria citadina, bem diferente do fluxo num nó rodoviário, onde confluem várias vias de grande movimento, o edil demonstrou claramente que a mobilidade não é matéria que domine, mostrou que nada percebe de trânsito. Aliás, se atendermos à evolução dos processos relativos aos chamados modos suaves de transporte e, designadamente, aos sucessivos avanços, no plano da retórica, e recuos, no que toca a obras, facilmente concluiremos que nesta área sensível não estamos a falar de mobilidade, mas de imobilismo.

Ao ser questionado sobre as derrapagens nas poucas obras dos seus dois mandatos, Ricardo Rio procurou justificar-se com o facto de não serem obras de raiz pelo que, segundo disse, é normal os custos apresentarem derrapagens. Aduziu ainda explicações sobre “a especificidade e uma dificuldade que ninguém consegue antecipar" e, sentindo-se acossado, decidiu passar ao ataque recuperando o estafado tema dos custos do estádio municipal para fazer comparações. Nessa linha de pensamento, e para tentar escapar às crescentes críticas, disse que “só essa obra, por si só, deveria inibir o Partido Socialista de Braga a falar em derrapagens em relação a toda e qualquer outra obra municipal”.

É este tipo de arrogância (pouco) democrática que Ricardo Rio tem utilizado para tentar calar os seus críticos. Há uma dúzia de anos, a então presidente do partido a que Rio pertence chegou a sugerir suspender a Democracia por algum tempo. “Não sei se, a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha a democracia”, disse na altura Manuela Ferreira Leite.
A julgar pelas respostas com que o presidente da Câmara tem brindado as crescentes críticas à sua gestão, críticas que, deve recordar-se, não provêm apenas das forças da oposição, fica-se com a ideia que o autarca bracarense é um fervoroso adepto da ideia apresentada pela antiga líder do seu partido. Ou seja, Ricardo Rio preferiria que ninguém o importunasse com denúncias ou chamadas de atenção, que não existisse a possibilidade de contraditório, enfim, que pudesse assumir aquilo que é conhecido como o quero, posso e mando. Mas uma tal postura, tão do agrado de tiranos e tiranetes, corresponde a um regime que não tem qualquer correspondência com a Constituição Portuguesa. Por muito que custe a alguns…

As justificações para o abate de árvores – “recebemos muito mais e-mails e solicitações diárias de pessoas que nos pedem para abater árvores (…) do que propriamente para salvaguarda das mesmas” – seriam absolutamente risíveis se não estivéssemos a falar de um assunto demasiado sério. Por outro lado, sobre as chamadas zonas 30, o facto de acantonar as críticas em núcleos de “alguns moradores”, sem cuidar da relevância das questões levantadas, mostra qual é o seu conceito de gestão de espaços públicos.
Finalmente o S. Geraldo e as “novidades” sobre a recuperação do imóvel e consequente entrada em funcionamento. Neste capítulo, Ricardo Rio confirmou as piores expectativas – a fruição do espaço por parte da população bracarense não acontecerá tão cedo.

O edil reconheceu que o projecto ainda não está pronto, pelo que o concurso para a requalificação do edifício nunca será lançado antes de 2021 e, assim, será extremamente difícil que a obra se inicie neste mandato. Entretanto, alheia à desorganização municipal, a Arquidiocese continuará a receber 12 mil euros de aluguer mensal. E depois ainda nos dizem que não há dinheiro. Por exemplo, para obras que possam dar alguma dignidade ao Estádio Primeiro de Maio que, além do mais, é monumento nacional.

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