Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Cuba é já ali…

Por mais cultura do treino e treino baseado na ciência

Ideias

2012-03-18 às 06h00

Carlos Pires

“Há um tempo em que
é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem
a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia: e, se não
ousarmos fazê-la, teremos
ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.”
Fernando Pessoa


1. Viajar é, sem dúvida, umas das experiências mais gratificantes que alguém possa ter na vida. Viajar faz bem à alma, desperta os sentidos e abre-nos os olhos para um novo mundo não só porque conhecemos novos cais e portos, mas também, e acima de tudo, porque conhecemos as culturas, as pessoas e constatamos as diferenças. Aprendemos. É isso que eu procuro, sempre que consigo um desses momentos de evasão.

Estive recentemente em Cuba, um destino para viver e sentir. Ao chegar à capital, Havana, pareceu-me recuar no tempo, mais precisamente até à década de 50. Património da Humanidade, ainda revela traços da cidade esplendorosa que outrora foi. Hoje, muitos dos edifícios, de cores quentes, ainda conservam a imponência arquitetónica, não fora a visível deterioração, como se a cidade tivesse acabado de sair de uma guerra.

A quantidade de carros antigos que percorrem as ruas de Havana é enorme, um verdadeiro museu a céu aberto, que fascina e desperta curiosidade. Não existem em Cuba outdoors, placas ou qualquer tipo de publicidade. É incrível a sensação que a ausência de poluição visual provoca, uma libertação para os sentidos. Por seu turno, a televisão exibe discursos quase diários (para as câmaras!) de Fidel Castro. Não há crítica, tudo é bom e positivo...

Contudo, existe a outra face da moeda: no interior dos edifícios, caindo aos pedaços, famílias inteiras sobrevivem com escassez de comida, de vestuário e de condições sanitárias. Uma situação de “pobreza digna”, ou seja, não chegam a passar fome, mas vivem com pouco mais do que o mínimo.

Os baixos salários tornam-se fonte de insatisfação, porque impedem um padrão de conforto adequado; o cubano vê o turista estrangeiro gastar cinquenta vezes, num só dia, o que ele, cubano, ganha num único mês; sabe muito bem que o visitante estrangeiro tem acesso a objetos de comodidade e prazer inacessíveis para a maior parte da população da ilha.

Paradoxalmente, a excelente educação que todos recebem origina frustração, atendendo a que muitas das aspirações despertas não são atingidas, acabando uma grande maioria como empregados de limpeza de hotéis ou motoristas de táxi. Ou ainda no turismo sexual, uma assustadora realidade consentida hipocritamente pelo regime. Um grande número de prostitutas frequenta os ho-téis (todos!) a convite e pagas por estrangeiros.

O que mais me desapontou em Havana foram as pessoas; os cubanos. Evidenciam, quase todos sob a máscara de uma (falsa) simpatia, o mesmo rancor latente - não estabelecem contacto sem interesse: seja para vender charutos seja para impingir qualquer bugiganga artesanal. Depois de refletir sobre toda a realidade social que se vive naquele país, acabei por compreender a forma de estar das suas gentes.

Do outro lado do Atlântico está a Europa, está Portugal, cujo presente é de “empobrecimento”, com um número crescente de licenciados no desemprego, com grandes obras de infraestruturas realizadas no passado próximo relativamente às quais não sabemos se haverá dinheiro para a necessária manutenção. Será que este processo de estagnação não tolherá o nosso espírito e maneira de ser, à semelhança do que, por motivos diversos, assistimos em Cuba?

2. Na passada quinta-feira, um grupo de dissidentes políticos ocupou uma igreja em Havana, reclamando uma audiência com o Papa Bento XVI, que no próximo dia 26 visita a ilha pela primeira vez, reivindicando um debate sobre os Direitos Humanos. Reclamam liberdade e o fim da repressão. É justamente porque o governo não consegue realizar o que dele se espera que reage de dois modos: primeiro, atribui ao inaceitável embargo norte-americano a culpa de todos os problemas internos; segundo, trata o dissidente como um traidor. 

Reprimir quem discorda é inaceitável. A Liberdade é um valor fundamental para o bom desempenho da economia e para a felicidade das pessoas, para que a democracia não se torne em discurso legitimador da pobreza de muitos e dos privilégios de elites. 
Ao passear pelas ruas de Havana, “La Guantanamera” é provavelmente a melodia mais ouvida.

Ela surge dos versos de José Martí, herói nacional ligado à independência de Espanha, e apela à amizade e entendimento entre os povos. Que teima em tardar a chegar a Cuba. Não obstante a “Troika” e todas as ansiedades que se vivem no “velho continente”, confesso que senti falta do conforto, das liberdades e libertinagens de que já não damos conta por cá, por tão certos que estão na nossa vida. Como, em tempos idos, estiveram na vida dos cubanos.

E em jeito de conclusão, a resposta para a pergunta que todos formulam: ninguém lá sabe (eu perguntei a algumas pessoas, as que ousaram falar) o que pode acontecer depois da morte de Fidel, só os anos o dirão...

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